PRIMEIRO TEMA SEM JÚBILO

- I -

Onde encravar a pérola do júbilo,
com seu clamor aceso de esmeralda,
nos anéis poluídos do Destino?

Como domar a culpa insuspeitada,
que de nós se alimenta, e que derrama,
como em doces meandros, sua gema?

Que fazer das alturas que inventamos,
se cedo ou tarde o céu há de tombar,
despovoado de estrelas, sobre nós?

 

- II -

Ó esperada bênção, quanta angústia
custou-nos o querer-te, e quando desces
não sabe a carne o que fazer contigo?

Em que deserto a lágrima invisível,
só para não chorar, desencantou-se
e se perdeu, no seu pudor do nada?

A bênção se negando de ser bênção,
ou mãos que as suas linhas inverteram
para precipitar os seus abismos?

- III -

E não houve outro selo além do gesto
que desviou as águas da Carícia,
magoando de areias seu silêncio?

E não houve outra voz além da dúvida,
que fez tremer todos os candelabros
nas mãos que caminhavam sua fé?

Negros irmãos que em breve se estranhassem,
os olhos se cerraram: como lousas
sobre palavras nem sequer nascidas?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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