EXPECTAÇÃO Nº 7

PACTO

I Não me tortures mais, Senhor da Espera.
Sabes que sou poeta e auxiliar do Anjo.
Sabes que sou teu cúmplice
e sofro apenas por não conseguir
salvar-me de ti.
Eu e tu somos uma só cumplicidade.
E já que me deste a tua Serva
para pastorear as minhas loucuras
e salvar a minha mais preciosa tempestade,
liberta ela de todos os demônios
e, principalmente,
da fúria insaciável deste demônio que me domina,
para que ela conheça também o anjo que dormita comigo.

II

Quantas sendas de espera a percorrer. Quantos malefícios a conjurar.
Tudo a exigir que a nossa vida seja como nunca
um testemunho de pedra,
um dogma
diante do Destino.
Como se o tempo começasse e terminasse conosco,
além de todo senso de duração,
e aprisionássemos a eternidade em nossa carne,
nos seus próprios limites
que são a nossa moldura para o Eterno.
Não adianta poupar-nos:
seria poupar-nos do mistério único que somos
e se irradia, a despeito do controle de nós mesmos.
Só temos de forte a nossa fidelidade
- escudo contra todo transitório -
é ela que ilumina a nossa carne
ordenando o absurdo que habita conosco
e que, ao mesmo tempo, nos salva e nos destrói.
É ela que torna possível o milagre,
pois sempre cremos menos no milagre
que na possibilidade do milagre.
É ela que nos permite dizer à Eleita,
ao Sonho eleito,
ao absurdo do sentimento que não sabemos:
não sei se isso é um milagre,
mas sei que és o Milagre.
É ela que diante da companheira
mansa e aparentemente frágil
pode silenciar em nós a cansada violência
de quem subiu quase o último degrau da morte simbólica. É ela que oferece em sonho
o seio da companheira à nossa boca torturada
- como um sinal pedido a um deus sem mancha -
tornando-a subitamente materna.
Todo caminho leva ao porto: Só que não há porto.
E, por isso, se tudo leva a nos perder,
antes nos perdermos por aquilo que amamos,
que perder traindo-nos, ao trairmos o nosso próprio Sonho,
e apodrecer as fontes do nosso Destino.
Pois sempre somos nós - e não o Deus -
que nos faz adiar ou perder, sem remissão,
o único encontro que nos é dado.

III

Deste-me a tua presença
desde íntimas raízes conjugando-se claras
em uma chama de alma, renascendo-me os ossos
e, principalmente, como algo que não posso dizer.
Presença que não pede só para ser vista
pois é tão real que independe da visão.
Presença que se dá - não apenas o corpo,
nem apenas a alma - mas chama que proclama
o seu círio e o seu louvor.
Mas chama a debater-se no extremo de sua haste
contendo, ao mesmo tempo, o dentro e o fora dela,
num debate de línguas de fogo sobre a Vida.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
O Inquisidor

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