REVELAÇÃO DO MARAVILHOSO

O Maravilhoso
pôs um selo sagrado em minha boca,
para que eu não espalhe a palavra
entre os porcos do mundo;
mas só a espalhe aos herdados por seu sangue,
aos conquistadores do grande sonho,
aos salvadores do seu fogo original.
Não há maior degradação
do que a degradação da palavra
e que mais fira o coração do Maravilhoso.
A palavra que não cura, não ressuscita e não salva
não é a palavra do Maravilhoso.
Os únicos personagens vivos são os anjos
pois são os mensageiros da palavra:
da palavra de asas poderosas
e erguidas contra as âncoras da morte.
Por isso, a despeito de todos os naufrágios,
honra tua fidelidade à palavra
pois nela corre o sangue do Maravilhoso.

O Maravilhoso me tomou sobre os seus ombros
e concitou-me à descoberta
do que por trás de todas as aparências
clama para ser violado:
numa violação que nunca rompa
por completo o tecido e o véu das coisas
que circundam o altar da Realidade:
a sempre violada e sempre virgem,
possessa e possuída do Maravilhoso.
Musa que arde de um fogo sempre novo
que é entretanto o fogo original.
Todos os candelabros do mundo
são insuficientes para incendiá-la.
Chamas se lhe renovam sobre a carne
mas ela permanece intocável no seu mármore.
E nas suas selvas sempre ocultas
ecoa o canto do Maravilhoso.
Mas ninguém chega à Realidade
e às suas grutas
com os olhos desertos do Maravilhoso,
olhos abertos em fendas sem passagem,
e a alma sem buscas e sem sombras.

Pois o Maravilhoso
é o fogo que envolve o corpo da Musa
e ao mesmo tempo é o pai da grande sombra.
Por isso ele ama a sombra dos que tateiam
na espera e na busca desse ventre
sempre fugindo à selva dos seus olhos.
Bem-aventurados os que percorrem
as três voltas do Triângulo,
para não mais esquecer a sua forma.
Pois elas são três voltas do êxtase:
o sentimento, a vontade e a inteligência do mundo.
Por isso só aqueles que trazem
tatuados na carne os três mistérios
poderão receber o dom do eterno.
Finalmente, ninguém chegará
sem a fé no impossível,
e a boca sem o fogo da palavra,
e os olhos desertos do Maravilhoso,
perante o altar triangular da grande Musa
que dos seus seios jorra a fonte perpétua
e insaciável
das muitas águas da eternidade.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Armorial de um Caçador de Nuvens

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