CANTIGAS DE FINGIMENTO

- V -

Quem não tem chaves tem garras
no seu sangue prisioneiro,
e um sol de fúrias sangrando
em cada canto um canteiro:

Neste jardim só de espantos
sou meu próprio jardineiro.

Ralhem aves agourentas
maculando a paz das horas;
tornem-se as nuvens cinzentas
para todas as auroras:

Quem cavalga sobre os ventos
tem estrelas por esporas.

- VI -

Há muito calaram sinos
pois não há quem os tanger.
Nem meninas nem meninos
tangem sinos em meu ser:

Calaram os sinos do mundo
e eu sinto a alma doer.

Mesmo sinos de concreto
não os ouço, e o céu fechado
parece enorme deserto
pairando no nosso fado:

Se é que fado nos reste
depois de tamanho enfado.

- VII -

Depois da morte de tudo
em nós e fora de nós,
nada mais merece estudo
pois estamos todos sós:

E todo idioma é mudo
apesar da nossa voz.

Para que os cantos da terra,
se não há quem mais os cante?
Descobriu-se o último brilho
da estrela mais distante:

Mas resta um mar inventado
à espera de navegante.

- X -

Ouço os cães ladrarem longe
das estrelas, com o focinho
mais sério que o ar de um monge
na certeza do caminho:

Pudesse eu ladrar tão longe
sem me sentir tão sozinho.

Ai de mim que sequer tenho
a sombra por companhia.
Meu coração é um engenho
remoendo nostalgia.

As imagens que eu retenho
do hoje são de outro dia.

- XIV -

Cangaceiras esperanças
sob um céu de desatino
espalho nos sete ventos
agudos do meu destino:

Por campos sem lei nem rei
desarvorado menino.

Em torno de mim matanças
despertam o sangue enjaulado,
o gume calmo dos ossos
e a paz de um homem calado:

Serei então lei e rei
de um país desenganado. - XVIII - Dormem panteras no corpo
como nuvens, como águas.
Mais serenas do que o sopro
de um campo feito de mágoas.

Nuvens de calma, só rendas:
como um desenho nas águas.

Dormem panteras no corpo
guardadas por mil desvelos.
Nem mesmo para domá-las
ninguém desperte os seus pêlos:

Elas mancharão as salas
com malhas de pesadelos.

- XIX -

Meu pai dos olhos de lebre
que amansam, com o seu clarão,
os tigres enraivecidos
do infortúnio e da paixão:

Também amanso meus tigres
mas com flechas sem perdão.

Meu pai que o toque castanho
de sua clarividência
espalha, desconfiado,
pelas costas da inclemência:

Na sua bênção repouso
minha fingida inocência.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Armorial de um Caçador de Nuvens

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