INSCRIÇÃO

O que não quero, finjo. Mas
Quero apalpar o sonho que não posso:
Essa angústia impossível, e tão concreta,
por tudo que perdeu-se dos anais.

Meu Deus, meu cúmplice,
três vezes te saúdo,
e nada mais.

XI

Meu velho e aceso demônio
hoje dançou mais que sempre
sua ciranda de tédio
na pedra da minha vida.

Fez bem despertando fúrias
sem as quais não viverei.
Filho de nefanda chuva,
de primaveras não sei.

Fez bem em curvar a foice
da velha lua em meu rosto
violado pelos deuses
antes de qualquer espelho.

Fez bem em mandar seus pajens
passearem sobre o meu corpo:
em seu mármore mais louco
e frio que o cotidiano.

XII

Ao fogo que é jovem, e queima
por ser jovem e por ser tenso:
e que se mantém intacto
mesmo no maior incêndio;

Ao fogo cuja exigência
deixa os seres perturbados.
Ao fogo eu honro, a este fogo
de natureza implacável.

Ao seu incêndio me entrego
e o coração nele inundo,
até sair puro e cego
das labaredas do mundo.

XIII

Os deuses contaminam estas moradas
com o suplício da relva sempre virgem,
por mais que os corvos dancem contra as portas
do nosso destino ignorado.

Por isso brotam flautas sobre os túmulos
e há brasões renascendo em nossa carne.

XV

O Inexistente casou-se com meu sangue.

Por isso vivo das pulsações do Inexistente,
e o canto, porque ele é belo e não me fere.

Em seu seio reside a Esperada e jamais vista,
além de toda busca e todo amor.

XVI

O pior nômade é o que vaga dentro de si mesmo
sem várzeas nem jardins para repouso,
passeando a impiedade de estar vivo
nas desgarradas selvas do Destino.

Armei um salto
para ter a consciência de ter feito algo.
Embora em nada cresse: 
nem no salto nem no alvo.

Agitei a cabeça
para sacudir as minhas dúvidas
mas apenas caíram poeira e fragmentos de nada.
Os jardins da dúvida estavam ausentes
(pois a dúvida também tem os seus jardins).

Em que lugar dormirá sem mácula
o sonho do meu sangue?

XVII

Ao coração da Esfinge
raros vão.
Por isso ela sofre
por não ver atendidas suas exigências,
e se atira dos montes sobre o mar.

- XVIII -

Não me perguntem como vou. Saúdem-me
com o júbilo próprio das bandeiras
de príncipe, sim, de príncipe. Estendam-me
ante os olhos toda a heráldica de um mundo
antes sonhado que existente.
Pois toda a realidade é símbolo
que se dilata em reinos sem fronteiras
para além da amargura ou da inocência
dos que regam seu pobre paraíso.
Os deuses não conhecem a aristocracia do sangue,
mas apenas a do espírito.
Por isso cismei de estar mais próximo dos deuses
para melhor compreender os homens.
(Tudo é uma questão de cismar e imaginar.
Toda a grandeza é farsa e fantasia).
Se ser homem é ser frágil,
serei um frágil sem fragilidade.
Porque serei antes um lesado consciente
que ingênuo.
Um lesado não pelos fortes, 
mas, muito pior, pelos frágeis.
Um lesado não só da Morte 
porém da Vida.
Um lesado que assumiu a enfermidade dos outros,
mesmo sem ter se deliciado com o espetáculo.
Um lesado que, por suma benevolência,
e sem que ninguém o adivinhasse,
a sua própria alma assassinou.

- XXII -

Navego um mar de símbolos sem conta,
se multiplicam velas, e o velário
das águas está longe de romper-se
apesar das tormentas que se dão. Em seu seio noturno. E o mar confunde
a terra e o céu que nele submergem.

- XXIV -

Edifico bandeiras sobre os ossos
e convoco as trombetas e os clarins
para que clamem, para celebrar
as faces restauradas deste Dia.

Em seguida ao Sol louvo e curvo a fronte
e morro em seus brasões crucificado.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Armorial de um Caçador de Nuvens

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