A VISÃO DE BERNADETE

- I -

Pequena Bernadete
Asmática de Deus.
De alma além do fôlego,
que o fôlego é pequeno
para conter sua alma
sedenta e pressurosa.
Que o fôlego é pequeno
para a alma que é tanta.
Que o fôlego é pequeno
para conter seu Deus.

- II -

Cheiro de hóstia nos ares
brancos de Massabielle:
traspassada de vozes
uma menina reza.
As colegas de há pouco,
e a mata em torno, cessam.
Desarmada na gruta
a carne lhe estremece
frágil e confundida
sob os punhais celestes.

Uma visão não dura
mais que o tempo preciso:
crescendo num sorriso
bem maior do que a carne,
na boca a debater-se
a alma leve de pássaro,
quando a Virgem lhe desce
sobre o corpo minguado,
traspassado de vozes,
claro e desamparado.

- III -

Por que se esconde essa Virgem
do mundo e de sua cara,
e apenas a uma menina
se revela visão clara?
Brancos caminhos a levam
além da gruta e da terra,
no bojo de ocultas asas
oculto vento celeste:
mas a menina não sabe
mais nada senão que reza.

Ó Virgem de torta escolha,
tão torta como as do Filho,
por que os mais altos prelados
do mundo não vêem teu brilho?
Não vêem teu manto estrelado,
e as palmas das mãos descidas
sobre a gruta num clarão
que deixa a luz confundida?
E só mesmo à Bernadete
te fizeste aparecida?

Será preciso a alma ter
dela as vertigens e as ânsias
todas do mundo, e perder
todo o senso da distância,
para que possam os joelhos
ir além do próprio ardor,
e a mão alcance essa prece
que só Bernadete achou:
de sob o peso do cálice
de sua inocente dor?

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Armorial de um Caçador de Nuvens

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.