GALOPE DOS MÁGICOS

(Em ritmo de galope à beira-mar)

As ancas da tarde estremecem chorando
com as línguas de fogo dos ventos finais.
E os anjos de rubro nos céus vesperais
a fímbria das vestes espalham ondeando.
E como um murmúrio de pássaro brando
ou tal uma brisa de sangue a rezar,
eis que sobre as ondas um novo avatar
unindo seu grito ao clamor das sereias,
rebenta seu nome de encontro às areias,
cantando o galope na beira do mar.

E os príncipes loucos correndo na praia,
as naves girando das mãos e dos pés,
restauram nos ares antigos corcéis
ao som desta voz que o silêncio desmaia.
Tão belo este canto sangrando se espraia
aos seus exilados ouvidos sem lar,
que em prantos conhecem a voz do avatar
que à terra regressa calando as sirenas,
e as máquinas torpes, e as dores e as penas,
cantando o galope na beira do mar.

O mago Verdantha cavalga no vento
de suas narinas de estrela crispada.
E com seu querer ofegante de espada
e os giros vermelhos do seu pensamento,
desperta dos lábios o império violento
de suas palavras de vida a sangrar
aos príncipes loucos na praia a bailar.
E a angústia da voz que os cristais dilacera,
nos arcos de sol de seus lábios de espera
desfere o galope na beira do mar.

Ó príncipes loucos, eu vos anuncio,
pisando na cinza dos tempos pressagos,
o fim de degredo de todos os magos
e a grande vingança do meu desafio
aos donos de um reino cansado e sombrio.
Por isso eu vos chego num dia a findar,
na véspera de outro mais longo a tombar
com todos os pássaros e as fúrias do verde
de bílis rebelde, de fome e de sede,
com ânsias sem nome espumando no mar.

Por isso eu vos chego de móveis alturas
desejos calcando de vãs seguranças,
mesquinhos consolos, fiéis esperanças,
e apenas vos prego loucuras, loucuras,
das mais imprevistas, mais belas, mais puras,
e não das de porte calmoso e vulgar,
loucuras possíveis em todo lugar.
Imprimo por isso aos meus novos cantares
o rumo sem rumo das ondas nos ares
e a sombra dos ventos caídos no mar.

Insones vos quero: como a candelabros
acesos na pele de um pássaro morto.
Como a candelabros velando num horto
o sangue dos deuses ao pó revelado.
A vós cujos olhos trazeis desterrados
da antiga membrana que foi vosso olhar.
A vós que trazeis numa insônia lunar
um tigre doente a rasgar-vos as veias,
jamais venha o sono assim como às sereias
que insones galopam na beira do mar.

Insones vos quero: de sob as estrelas
que há muito perderam seu louro renome.
De sob esta lua, cadáver que some
atrás das idades sem mais percorrê-las
com seus velhos raios filtrando-se pelas
marmóreas veredas de quando luar.
Insones foguetes os céus a varar
assim eu vos quero: com os olhos acesos,
abertos e claros, mirando surpresos
o verde galope das ondas do mar.

E a um novo galope a vós todos convido,
que a trama da vida enlaçastes num véu,
mantendo das coisas a imagem fiel
além das escuras paredes do olvido.
A vós que fazeis o mistério vivido
e a insônia inventastes pra mais o mirar.
O tempo não finda a quem quer cavalgar
cavalos de insone e indormida beleza,
nos cascos sangrando seu timbre e nobreza,
correndo ao galope da beira do mar.

Porque sois insones tereis o legado
que cabe aos amantes de longa procura:
há fontes manando de vida e ternura
atrás desse jogo do verso e do fado.
Há fogo, paixão, desafogo, chamado,
e a fúria dos anjos que querem vingar
as asas manchadas na perda do lar.
E toda uma entrega de amor que se oferta
a quem traz o olhar como chama deserta
por sobre os galopes da terra e do mar.

A insônia vos prego, afinal, porque dela
tirastes o brilho de vossas entranhas.
Envoltos do manto de pátrias estranhas,
possessos do fogo que a musa revela.
Insones vos quero, afinal, porque é bela
e mágica a insônia dos que amam sonhar,
embora sem sonhos ou nada que amar.
Porque não se entrega a qualquer abandono
quem sonhos conquista na terra sem sono:
na clara vigília das ondas do mar.

Das perdas da terra construí vosso Paço,
da renda dos lírios tecei vosso engano,
na ausência de mar inventai um oceano
maior e mais denso em seu líquido espaço.
A vossa paixão servirá de compasso
na terra, nas águas, montanha ou solar.
Dareis à palavra um fulgor estelar
de raios convulsos, clarões, chamamentos,
que faça tremer a conjura dos ventos
no negro galope das ondas sem mar.

Refúgio dos anjos, esquiva paragem,
além dessas dores no cerne da vida,
as aves, e o brilho das asas tolhidas
que ao sonho se libram depois da voragem.
Retornem do olvido princesas e pajens.
Renovem-se as velas do vosso esperar.
Ó corte dos lírios, ó rosas do ar,
ó louras madeixas libertas das feras,
ó plagas remotas, ó doces galeras,
ao som do galope das ondas sem mar.

Mas que valem sombras? Não mais espereis
de velhas usanças, palavras e guizos.
A névoa, essa névoa a vedar paraísos,
não pode trazer-vos de volta outra vez
as louras miragens da vossa viuvez.
Quedaram-se os templos, sem pira ou altar
em honra dos deuses: perdido velar.
Aos peixes dourados dos mares no fundo,
debalde clamais nas areias do mundo,
no negro galope das ondas sem mar.

As próprias serpentes o seu poderio
mataram com a perda da fé no veneno.
O mal sem tragédia - não chega a ser pleno.
o bem sem grandeza - perdeu todo o brio.
Cercou-nos de muros um grande vazio
e vemos canteiros de tédio e pesar
do chão carcomido das (h)eras brotar.
Extinta a alegria, e o amor sem sentido,
a vós nada resta senão ter ouvidos
pra o negro galope das ondas sem mar.

Se o mar se acabou, e o seu verde, e esse aflito
girar das gaivotas por sobre os navios.
E o gasto tecido dos búzios já frios.
Não fira o silêncio jamais com seu grito
de guerra nos ares sagrados do mito.
Tritões e sereias não mais a povoar
dos sons de seus lábios o céu tumular.
Apenas por eco das ondas passadas,
os nervos convulsos das conchas magoadas
pranteiam nas pedras os restos do mar.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Armorial de um Caçador de Nuvens

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