ODE SACRIFICAL

- I -

Glória ao Senhor da Espera,
Àquele que perturba para depois violar.
Glória ao Perturbador e ao Violador das nossas almas,
Glória ao Divino Tentador, Serpente levantada sobre o deserto
Para nos perder e para nos salvar.
Na ausência de montanhas ou grutas reveladoras,
No entrecruzar das vozes da terra,
Ouvimos ainda sua voz banhando a nossa solidão:
Pois os homens se deixam de novo tentar pelas palavras dos seus anjos.

Glória ao Senhor da Espera
Que não é apenas verdadeiro,
Mas belo e aprazível:
Pois em sua beleza repousa a verdade.
As menores coisas desejam ser conhecidas e reveladas
Por sua Espada, Luz, Serpente Clarividente,
Pois todas as coisas são concubinas de Deus.
Mas, por mais que se entreguem
À sua Espada, Luz , Serpente Clarividente,
As coisas terão sempre o que entregar. 
Por mais que elas sejam penetradas,
As coisas mantêm sua virgindade,
Inesgotáveis que são no seu mistério:
Pois todas as coisas são vestais de Deus.
Todas as coisas se entregam
Numa grande oferenda solidária,
Às mãos sacrificadoras que delas exigem
Seu sangue e seu mistério.
As coisas também se sacrificam umas às outras:
Pois elas são sacerdotisas de Deus.
Ó Senhor da Espera,
Violador das coisas,
Amante violento das vossas servas, as coisas,
Violai-as de vez.
As coisas estão em agonia
Para ofertar-se de vez e se pacificarem
E pacificarem a fúria da vossa Vontade.
E os poetas e mágicos, vossos sacerdotes e reis,
Querem oficiar junto a Vós, neste grande sacrifício
De todas as coisas para as vossas mãos.

- II -

Malditos os que se contentam com pouco,
Pois são indignos do muito.
Malditos os que se julgam realizados,
Pois estes cuspiram sobre o Espelho em movimento.
Malditos os que puseram chumbo nas próprias asas, 
Pois não poderão jamais se levantar
Das planuras do seu destino
Para os esplendores do Paraíso.
Malditos os que sustentam os pés na terra,
Pois não poderão ouvir as vozes do Céu.
Malditos sejam os maculadores da guerra,
Pois não têm a menor paixão pelo próprio combate:
Que sejam eliminados com Palavras sagradas.
Estes jamais serão arrebatados
Dos vales da sua impureza,
Pois não são inimigos nem soldados,
Não têm a nobreza das feras
Que atacam por necessidade do seu amor ou da sua fome,
Os cordeiros que se imolam sob a grande Vontade.
Podres como escadas partidas
Sobre um pântano,
Eles nem sequer poderão ser destruídos:
Pois deles não haverá memória alguma.

- III -

Sob os meus pés
A terra é jovem e mansa; meus pés é que são ásperos,
Bem mais ásperos que a fragilidade de minhas mãos
Modeladas pelo vento. 
No meu caminho
Há criaturas que são sombras incidindo
Sobre a minha missão,
E pondo o terror na minh'alma, aspirante de Deus.
Outros podem louvar o seu destino,
Eu não: não tenho mais tempo para isso.
Pois não vivo no tempo como numa redoma
Os peixes: trago espelhos implacáveis
Refletindo a face inquieta das coisas,
E o seu tatear sem rumo para o nada.
Por isso nada direi
Que não seja válido para mim mesmo,
Que nasci com a obrigação, aliás única,
De decifrar-me a cada instante.

- IV -

Glória às lâmpadas infantes
Brilhando junto aos túmulos da terra:
Ainda será grande coisa iluminá-los,
Mesmo que seus fantasmas não despertem
Nem dancem sobre as lousas
Sepultas pela sombra.
Glória às lâmpadas infantes
Pendidas sobre a terra. Expectantes
Anjos e virgens do Senhor. Amém.

- V -

O Senhor não tomou nenhuma de suas servas como Esposa A não ser sua Musa: As outras fazem parte do seu serralho sagrado. O Senhor não tomou nenhuma de suas servas como Esposa, A não ser sua Musa: As suas coxas são as colunas do mundo, E em seus seios se abrigam os mágicos da terra. E principalmente os seus santos, artistas e sábios.

- VI -

Híbridos ventos a perlustrar seus olhos Dourados da vertigem primeira: A virgem vê o marfim do seu corpo derreter-se, Antes mesmo de ser sacrificada. Que restou das esmeraldas dos seus olhos Depois que híbridos ventos a abateram? Com certeza por ela os deuses bailam E o seu corpo renasce além dos montes.

- VII -

Não consigo penetrar nos teus átrios. Ficarei no teu adro. As velas acesas poderão me perturbar. A mim que percebo o sussurrar dos teus anjos Escondidos entre as velas do teu altar.

- VIII -

Deste nova jornada em tempo ágil, A mim que me debruço sobre o tempo Pra sondar teus abismos, teus sinais, Tua branca linguagem tateando Meu corpo, e as esfinges que puseste - hóstias acesas - sobre a minha carne Ensinando a perder-me e a reencontrar-me Com as lâmpadas dispersas do destino. Anoto o tempo em rotos calendários: Os dias se puindo, e eu menos jovem Porém mais vulnerável às altas vozes Que me gritam a olhar-me fixamente. As altas vozes tuas, Pai em ouro, Fundindo em ti meu ser agora e sempre.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Didática da Esfinge

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