O INVISÍVEL

- I -

O Invisível chegou à hora zênite das perplexidades
e no túnel delas atirou a semente de uma estrela
maldita embora, no seu parir novas vigílias,
sobre um tempo escoado e já sem significado.
Mas este que emergiu dos brilhos-dores da hora zênite
esconde belas asas não vistas pelos homens.
E foi necessário que não se mostrasse em nada externo
para que sua identidade ficasse inalterada
e não se manchasse da impureza dos velhos homens.
A rigor nada externo poderia ostentar
o destinado por forças subterrâneas
a não falhar nos cálculos nem ferir as asas
num combate aberto com os velhos homens.
O Invisível é puro e, entretanto, dúbio,
dessa dubiedade própria do mistério
ou dessa outra que pretende salvar-se
do equívoco pior de ver adulterado
seu bem ou sua insânia.
Mas o Invisível se destrói por dentro
e perde nesse jogo toda carne
consumindo no fogo sua língua,
ao professar o ritmo do fel:
numa linguagem não comum aos anjos,
ele entretanto anjo.

- II -

O Invisível espalha panteras
quais dados mosqueados pelos fortes
imóveis sob um sol agoniado:
panteras de pelúcia, todavia.

O Invisível espalha panteras
como se fossem dados de um jogo
sinistro e calculado: de um jogo
em que os dados também fossem dardos.

Mas ninguém pode ver o Invisível:
ele se oculta atrás de suas tramas.
Mas se o vissem, veriam o desespero
de um anjo na sua face.

Claros como as teias de um sonho
urdidas fora do nexo
usual às simetrias,
são seus olhos.
E entretanto despedem miasmas
que contaminam as virgens e os anjos.
Os anjos de asas podres, falsos anjos,
as virgens só carnais, virgens demais.

Corrompe as fáceis brancuras
o Invisível.
Desprende dos olhos miasmas
e panteras das mãos.

O Invisível espalha a morte
e vai destruindo tudo, enquanto espera
com seus olhos claros, pairando sobre as ordens tombadas,
com seus olhos puros, não vistos pelos velhos homens.

Ele é aquele que espera,
que espera além dos deuses e demônios,
mas que espera em algo firmemente:
ativa espera, doloroso amém.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Didática da Esfinge

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