PAJEM

- I -

Será inofensivo
um poema só quando
calar sua serpente
ou matar o seu anjo.

Antes disso, um poema
ainda sendo o mais doce,
traz no sangue essa febre
da qual originou-se.

Essa angélica febre
ou de serpe a magia:
de que toda linguagem
é pronúncia tardia.

- II -

Nunca de ti me perca:
frágil fio preso à face
tua, que se mais fino
poderá se perder.

Eu servo destes dias
e desprezado pajem
de todos os vazios
salvo essa tatuagem.

De chamas, doce estigma,
serpente de pureza
contra as manchas da lua
em minha carne acesa.

- III -

Imperturbável ser do vento
sobre os nervos em chamas dos
violinos tortos, sim, dos violinos,
sem mãos que lhes despertem os diamantes.

Mas os arcos já gastos, mas os arcos
desgastados do tédio dessas mãos,
como o implacável vento sem sentenças,
no seu bojo de nada, calarão.

- IV -

E amanheço em teus ombros como um pássaro
tão jovem além das circunstantes vestes.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Didática da Esfinge

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