DOS LIMITES DO CORPO E DO POEMA

Não, não quero a euforia fácil dos bêbados.
A bondade fácil dos bêbados.
A ternura pegajosa dos bêbados.
Não quero o desfibrado entusiasmo
dos que são cativos das acrobacias dos tempos
antes de serem os tempos conjugados.
Filhos do puro jogo, porém imunes
ao fogo da Palavra. Por isso
quero todos os tempos do corpo
concentrados. Porque só aquilo
que se concentra sobre si mesmo é eterno.
Quero o mar concentrado e não disperso.
Quero enfim, o infinito. E nada impede
ser infinita uma coisa por ter margens.
Nós nascemos também tendo um corpo na vida.
Assim um poema. Assim tudo: em forma e substância,
a moldura do tempo faz eterno.
Quero o poema de um amor difícil:
como o sopro de um deus nascido em nós.
Que nenhuma palavra lhe anteceda.
Porque nada acontece à própria origem.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Didática da Esfinge

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