Todas as coisas têm língua e sua releitura

Um leitor comum, que desconhecesse o escritor alagoano Ângelo Monteiro, como é o meu caso, seria tomado de interesse e curiosidade diante do sugestivo título da obra Todas as coisas têm língua, sob o pano de fundo do quadro de Plínio Palhano, em Retrato de Ângelo Monteiro, que mira o infinito em meio ao fogo que, a um só tempo, purifica e destrói (SOUTO, 2012).

Já nas primeiras páginas, as opiniões críticas sobre Ângelo Monteiro revelam do autor autenticidade de vida interior, diálogo natural com a Filosofia e a Religião e desenvoltura no uso da palavra.

Cunhar palavras pelas quais vivemos

Em Palavras pelas quais vivemos, Paulo Gustavo apresenta a obra e seu autor partindo de uma citação de Hanna Arendt e aprofundando-a: a missão dos poetas é cunhar as palavras pelas quais vivemos. Para ele não se trata de quaisquer palavras, mas aquelas pelas quais criamos valores e que arrastam consigo os valores que dizem respeito ao nosso ser, àquilo pelo que somos o que somos e que nos dá um norte na obscura e fascinante viagem da própria vida. Situando o lugar ontológico do poeta, o crítico compara-o a um pastor, que vai à frente dos homens, não para dominá-los, mas para mostrar-lhes um caminho.

Há para o autor dois grupos de poetas: os que cunham palavras e os que cunham palavras pelas quais vivemos. É neste último grupo que situa Ângelo Monteiro. Estes poetas fazem a diferença, agem neste mundo de forma criadora, geram algo maior do que eles, como se tivessem sido instrumentos. E de fato o são: instrumentos da Palavra, a serviço de Deus ou da natureza, traduzindo pela poesia o Ser. Todas as coisas têm língua é um exemplo. Poder-se-ia dizer também que todas as coisas têm palavras, e por isso é preciso escutá-las. Os poetas dizem isto e falam da irmandade e da aliança de comunhão que nos envolve: conclusão essencialmente cristã.

Paulo Gustavo expressou, assim, de forma tão bela a missão do poeta e é a partir de sua reflexão que desenvolvo algumas considerações da leitura de Todas as coisas têm língua, de Ângelo Monteiro. Um primeiro contato com a sua biografia e algumas entrevistas na internet contribuíram para me situar com relação ao autor. Em seguida, a leitura da obra e algumas reflexões.

Experiência humana e poesia

A princípio chamou-me a atenção o diálogo natural – e familiar - que o autor faz entre literatura, filosofia e religião, colocando o homem no foco de sua atenção, mostrando-o na sua interação com o mundo, com as pessoas e consigo mesmo e na sua abertura para o Transcendente.

A citação de Hanna Arendt, a missão dos poetas é cunhar as palavras pelas quais vivemos nos leva, primeiramente, ao significado do verbo cunhar, que segundo Houaiss (HOUAISS, 2009) parece conciliar algo posto (imprimir cunho; evidenciar, difundir) e algo a criar. O poeta se coloca diante desta possibilidade criadora que a poesia suscita.

Em segundo lugar, poderíamos afirmar que a obra, a partir de a missão de cunhar palavras pelas quais vivemos, enaltece o sentido da existência e da experiência humanas, sua alteridade, a vivência do dia-a-dia, o cotidiano, enfim, a indagação de algo fora do próprio homem, que lhe dê unidade interior: a abertura, a busca do Transcendente, do Absoluto e um possível e/ou inevitável adiamento desta busca ou mesmo sua recusa. O poema A mala, me parece ilustrar algumas destas questões.

 

A MALA

Atirei a mala sobre o mar
E o mar sobre a mala
E o mar sobre a mala
Se debateu. 

Mas porque atirei a mala
Volúvel razão me cala
Pois nem sei como fui eu. 

Negra e súbita maré
Depois se abre aos meus pés
E eu vago atrás dessa mala
Como de algo íntimo e meu. 

Até hoje procuro a mala
E o mar não ma devolveu.

O poeta constrói neste poema um cenário intrigante para o leitor, envolvendo categorias espaço-temporais, a partir de três elementos estruturantes: o eu (sujeito oculto), a mala e o mar, que parecem se mover como pêndulos; a mala sendo arremessada de um polo (o “eu”) balança em direção ao outro (“o mar”), chegando-se a fundir com os demais no final do poema (VARASCHIN, 2004). O poeta, sob a figura da mala, parece se deparar com o “absolutamente outro, com a alteridade”. Este poema acena para questões que se interagem como: unidade e diversidade, individualidade, singularidade e fusão; racionalidade e sensibilidade; movimento e transformação; vazio e plenitude.

A poesia de Ângelo Monteiro focaliza o homem em suas condições fundamentais. Inclusive o homem como ser de linguagem, que pela palavra se reconhece aberto e enraizado na trama da comunicação humana e na qual descobre sentido na sua existência. O elogio à palavra aparece em vários poemas, formando uma trama muito interessante, que aqui é apenas esboçada: a palavra como condição de existência humana, como sopro de vida, que lhe dá claridade, que cria unidade na diversidade:

 

Envolta em labaredas/a palavra incendeia o mundo/ sarça de fogo de si mesma... asa intranquila sobre o mundo/ mas presa ao fôlego da vida. (A palavra e a esfinge);

Ondulosa palavra sobre as rendas dos dias ...atiradas contra o corpo das coisas /para as ferir em sua escureza e as fazer chegar à claridade. (A palavra e a verdade);

Sem as palavras tais rostos— e o amor por eles sofrido — seriam elos sem cadeia (Sob as palavras).

CONSAGRAÇÃO DAS PALAVRAS

As palavras jogam conosco
mais do que jogamos com elas.
Na rede das palavras
dançam peixes de todas as cores
e de todas as águas.
As palavras mudam de folhas
na árvore dos anos.
E às vezes
servem-nos de ânforas
para os mitos e ritos
que comungamos.

Com as palavras consagramos
a chama que nos falta à vida.

O DESTINO DAS PALAVRAS
A José Mário Rodrigues

Lidar com as palavras
como quem lida com rosas
sem lhes ferir as pétalas
nem lhes dissipar o perfume:
porque as palavras
têm delicadeza de pétalas
e seu próprio perfume
nem sempre aspirado em seu fervor.
As palavras existem para aqueles que cantam
e por isso nascem e morrem conosco

Como ser de linguagem o homem expressa a interação com o mundo, com os outros, com as coisas e consigo mesmo. Ele faz experiências que o ultrapassam no que lhe é palpável. E o interessante é que pode chegar a descobrir em sua finitude a abertura para o Transcendente. Ele se descobre como ser enraizado (Os sem raízes), para buscar algo maior (Voo livre), correr riscos, (Salto no escuro), para estar com outros na irmandade (Ah, o amor), chamado à felicidade:

 

A ROSA E A LÍNGUA DA FELICIDADE

A felicidade é uma rosa
que nunca se abre de todo:
nenhum olhar a viu inteira
em qualquer espaço do tempo.
E ao se encurtar em nossos olhos
e se esquivar aos nossos braços
em vão tentamos acercá-la
sob a cegueira dos crepúsculos.
Onde estiver do homem o reino
ela estará sangrando a terra.

A felicidade é uma língua
que pra dizer algo se cala:
mas diferente de uma língua
dispensa do homem a fala.
Parece saber que ele a busca
num esplendor que não tem nome
a espelhar todo o seu nada.
E semelhante a qualquer língua
lhe ensina então que morre em outras
para melhor se conservar.

Sua presença no mundo o leva a descobertas desconcertantes em face de perplexidades, contradições, opacidades; um mundo carente de referências e sentido; carente de irmandade, de amor, de paz (Memorial do pó).

 

O HOMEM E SUA TARDE

Com seus mantos de sombra se acinzenta
E o brancor de seus dias o apavora:
Mais irmão dos ocasos que da aurora
Seu pastoreio da memória aumenta.

Na fadiga das coisas busca alento
Pois nada novo pode dar-lhe o agora:
As aves da alegria ele ignora
Por voarem em outro firmamento.
No rio morto da tarde o homem vagueia
Mas não sabe o que n´alma lhe incendeia,
Se o anelo do princípio ou o do fim. 

Sabe só da saudade que lhe arde
Quando mais se aproxima o rio da tarde
Da sua foz de ouro e de carmim.

O homem que busca significado e sentido das coisas:

 

HORIZONTE SEM CÉU

Em seu horizonte não cabe nenhum céu.
Pobres de si mesmos
Toda riqueza, não sendo a deles, é vã.
E só por isso o céu é vão. E vã toda poesia. 

Miseráveis de flores, mas ricos de espinhos,
Como curar seu horror ao caloroso brilho
De qualquer estrela pousada fora do seu ninho?
Não sabem que cada estrela tem seu brilho
E nossos olhos foram feitos não só para ver: mas sonhar
Com o brilho de cada estrela refletida em nosso olhar. 

Ah! a tristeza dos que têm olhos e se recusam
A decifrar o desenho das coisas. 
Se fossem cegos possuiriam a glória de olhar
Para dentro de si mesmos. Mas como supõem ver, não percebem
Sua própria existência de pássaros cegos
Para o voo. Para o voo que ? além das asas –
Os pudesse elevar ao coração da luz.

Na descoberta do homem de sua abertura para o Transcendente, Angelo Monteiro não tem receio de expressar essa condição essencial do homem. O poema A dança do Senhor é expressão do desejo do homem e do adiamento da resposta de fé. Sua poesia dialoga com a fé cristã:

NATAL DE CINZAS

Galos estrangulados pela treva
palpitam contra a dura solidão
de suas penas. Enquanto a noite eleva
cristas e torres de desolação. 

As horas vão tecendo a modelagem
dos sonhos por nascer: novos natais.
E um Deus Menino espalha, na passagem,
sobre todas as cinzas Sua paz.

Sua poesia recorda homens que buscaram, como no belo poema Ladainha dos homens, que esperaram contra toda esperança, não se perderam no caminho, na descrença, inclusive Santo Inácio de Loyola.

 

D. INIGO, CAVALEIRO

D. Iñigo, cavaleiro,
velador da fé, saúdo
o teu garbo prisioneiro
de Cristo e do seu Escudo. 

No castelo dos Loyolas,
em Guipúzcoa, te encontrei:
não guerreiro destroçado
nas justas da humana grei,
mas guerreiro renascido
nas hostes de Cristo Rei. 

Jacó em luta com o anjo,
o anjo coxo o deixou.
Assim tua perna — essa viga
que a granada destroçou —
em Pamplona, para sempre,
por mercê de Deus, tombou. 

Se, tal Jacó, não vês coxa
a perna, após a batalha,
quis Deus que para os combates
do mundo não mais te valha
: porém forte e valorosa
para o combate que salva. 

Pois da gruta de Manresa
vais surgir novo guerreiro,
depois de em Montserrat,
ser sagrado cavaleiro,
velando as armas no altar
da Dama do mundo inteiro. 

Conquistando para o Reino
de Jesus servos leais,
D. Iñigo de Loyola,
em honra da Virgem irás
a cavalgar teu corcel 
nos campos celestiais. 

VIII 

A cavalo ou sem cavalo,
com garbo ou sem garbo irei,
prisioneiro do meu fado
para justas que nem sei:
sem culpa desencantado
do meu Reino e do meu Rei. 

Se eu quisesse ser sagrado
cavaleiro não seria,
mesmo estando arrebatado
por tanta fé sem valia:
jazem rotas as bandeiras
no céu da melancolia. 

Terá sido um suicídio
que me sagrou logo cedo,
para abraçar o difícil
da vida e do seu segredo,
ou a forma frágil de opor-me
às duras rochas do medo? 

Debalde me prendo aos elos
do meu desejo falido,
se espadas tramam duelos 
no meu sangue adormecido:
e não sei mesmo se quero
matar ou ser destruído.

Percorrer Todas as coisas têm língua, de Ângelo Monteiro permitiu-me um novo olhar sobre o homem em suas relações – com o mundo, com as pessoas, com as coisas, consigo mesmo e sua abertura para o Transcendente - remetendo-o à sua própria identidade e a uma busca de sentido da vida. A poesia de Ângelo Monteiro proporciona este olhar.

Finalizo este texto, citando Paulo Gustavo, no final de sua apresentação da obra poética, que retoma a autenticidade da experiência de Ângelo Monteiro, considerando-o como aquele que cunha palavras com fogo, e assim portadoras de “uma ardente cosmografia poética, cujas imagens e criações, longe de saciarem qualquer sede, instauram-se como flamejantes interrogações sobre a movente realidade das coisas.”

Ana Maria C. dos Reis
(Ir. Ana Maria, de Irmãs de Santo André)


Referências

Monteiro, Ângelo. Todas as coisas têm língua: seleção poética. Recife: CEPE, 2008, 499p.

HOUAISS, Antonio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 585.

VARASCHIN, Giuseppe Freitas da Cunha. Análise do poema "A Mala" de Ângelo Monteiro in http://migalhasderealidade.blogspot.com.br/2012/04/analise-do-poema-mala... Acesso em 04/08/2012

SOUTO, Bernardo. Ângelo Monteiro ou a poética da esfinge in http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&i... acesso em 04/08/2012 

Autor: 
Ana Maria C. dos Reis

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