Nudez, ausência, palavras... na poesia de Ângelo Monteiro

Só se poetas e escritores se lançarem a empresas que
ninguém mais ousaria imaginar é que a literatura
continuará a ter uma função.
Ítalo Calvino

Fábio Rafael *

Os caminhos que o poeta procura traçar, naquele fugaz e limitado espaço, onde versos e estrofes entre si brigam, em luta vã, que chamamos poema, são ilimitados universos-veredas de emoções e reflexões que, de maneira fluida, qual “nave sem destino que nos leva”1, permeiam a produção poética de Ângelo Monteiro. Os versos deste poeta contidos na obra Todas as coisas têm língua: seleção poética (2008), em sofisticada mescla de lirismo e filosofia, provam que a literatura é capaz de traduzir beleza estética e discurso filosófico em poesia. Desde versos livres, passando por poemas exemplarmente metrificados, até a forma poética tradicional do soneto, o poeta sintetiza sua vasta erudição com agudo pensamento reflexivo perante a realidade. Vejamos “Canção sem lua”. Misto de conhecimento mitológico-literário e filosófico.

Nas nascentes da lua cheia
desamarrei-me dos mastros
Ouvi todas as sereias.

Mas apagada essa lua
perdi o rumo dos astros
para achar minha alma nua.2

Fazendo uma menção implícita ao personagem emblemática da literatura ocidental – Ulisses (Odisseu), do poema épico Odisséia,de Homero – o eu lírico se remete à clássica cena em que o personagem pede aos seus companheiros que o amarrem aos mastros do navio, a fim de não ser seduzido pelo canto das sereias. Todavia é o signo da subversão que fala mais alto – o poeta aceita o (en)canto dos seres mitológicos, metáfora da sedução, ambiguidade, ilusão, incerteza das coisas. Aceitação, talvez, da liberdade e do descobrimento de sua “alma nua”, despojada de convenções e superficialidades sociais. Um outro tema que irá aparecer com ímpeto na obra de Ângelo Monteiro é o da dicotomia presença/ausência. Presença paradoxal, eivada de uma eterna incompletude, afinal ela é marca do ausente (“Toda presença não passa de um sinal de ausência”3).

E é em “Habitação da ausência” que o poeta, mergulhado em solidão a transpirar em cada verso, faz considerações entre o passado e o presente (“O júbilo de ontem, a tristeza de hoje”), fechando o poema com inabalável constatação: “A ausência – e só a ausência – habita em nós.” A repetição do vocábulo ausência salienta e reafirma ainda mais o desalento filosófico- poético: só restará no porvir, afinal tudo está encoberto sob manto da efemeridade, a certeza do ausente. Talvez, uma resposta à inquietante pergunta de Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas – “Homem foi feito para o sozinho?”.

Estigma e função daqueles versejadores engajados com a palavra em suas múltiplas faces, dedicação plena à experimentação da linguagem, Ângelo Monteiro apresenta em “Da noite e do dia” o trocadilho, o uso de palavras de mesma grafia e sonoridade (a corda/acorda) para elevar o poema ao grau de objeto artístico, singular e inovador:

Da noite que se expira
do dia se acorda
busco apenas a corda. 

Não a corda que enforque
mas libere
pura corda de luz
amor que fere4

Neste poemeto há o jogo dual inerente à palavra artística. Entre a noite findando e o dia acordando, o desejo, não suicida, de uma corda que libere, quiçá o veneno do amor?, luz irradiante do amor que fere. E é nesse tipo de atitude que Ângelo Monteiro, enquanto poeta alquimista, faz trapaça com as palavras, no sentido em que Roland Barthes certa vez afirmara:

 

Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem [...]. As forças de liberdade que residem na literatura não dependem da pessoa civil, do engajamento político do escritor que, afinal, é apenas um “senhor” entre outros, nem mesmo do conteúdo doutrinal de sua obra, mas do trabalho de deslocamento que ele exerce sobre a língua [...].5

Revolução é o terreno literário. Despretensiosa quanto a poderes e a qualquer desejo de dominação, a literatura se faz arte quando livre de interesses, sugerindo sutilmente através do pensamento questionador e do sublime. Impossível ficar imune a esse tipo de poesia: “Eu cresço junto à sombra/a sombra me devora e me mantém./Pavoroso espetáculo que assombra:/a espreita do além.”6

 


Referências

*Graduação em Letras pela FOCCA – Faculdade de Olinda. Pós-graduação em Literatura Brasileira e Interculturalidade pela UNICAP. Professor do ensino fundamental e médio. (MONTEIRO, Ângelo. Todas as coisas têm língua:seleção poética. Recife:CEPE, 2008, p. 39

2) Id., p.90.

3) Id., p.47
Id., p. 184

5) BARTHES, Roland. Aula. 11 ed. São Paulo: Cultrix, 2004, pp. 16-17

6 MONTEIRO, Ângelo. Op. Cit., p. 183 

Autor: 
Fábio Rafael

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