Revisitação da estética barroca na poesia religiosa de Ângelo Monteiro

Ariadne Quintella possui um bom tempo de estrada no jornalismo pernambucano. Resolveu, agora, revelar o seu lado mais discreto: o de conhecedora dos assuntos literários. Mais ainda, o de "especialista em literatura brasileira e arte," como escreveu o escritor Bernardo Souto no prefácio do livro Revisitação da estética barroca na poesia religiosa de Ângelo Monteiro.

A revisitação de Ariadne é bastante original. Não me lembro ter lido sobre a junção do barroco à obra poética de Ângelo. O Barroco se caracteriza pelo exagero expressivo e pela irregularidade. A poesia do autor de O Caçador de nuvens segue a trilha do transcendente, da beleza imagética, da religiosidade que quer uma comunhão perfeita com a divindade. Não é à-toa que o poeta se proclamou de Vice-Deus, num de seus famosos poemas.

Barroco, moderno, pouco importa. Sei que Ângelo consegue se superar até nos seus poemas em prosa: nos já publicados no livro O ignorado e nos inéditos que tive o prazer de conhecer. Ele costuma dizer que só o sofrimento é responsável pela realização da grande obra. Minha mãe, já falecida, e que não entendia nada de poesia, me disse certa vez algo assim: "O poeta tem que sofrer muito". Isto porque eu lhe revelei, quando ainda muito jovem, que queria ser poeta.

Vejo agora que peguei um caminho sem volta. Perdi as rédeas e o sentido exato do viver que desejava, pois o sonho já não tem a forma da nítida imagem que eu fazia. No passado o poeta era louvado e respeitado, pois se tratava de alguém que estava num degrau acima. Hoje não tem quase nenhum degrau. A gente é que fica fantasiando a realidade e voando para o nada ou para o transcendente, o desconhecido. Somos, indiscutivelmente, iguais e até muitas vezes imperceptíveis.

Para certas pretensões, melhor é esconder a condição de poeta. Ser poeta num mundo prático, informatizado e cheio de concorrência, é atrair para si mesmo um certo descrédito que vai resultar no conhecido chavão: "Ele vive no mundo da lua".Olhando bem, quem escreve coisas assim - "Meu astrolábio é o ser em agonia/ e meu porto é além de todo cais" - vive mais sintonizado com o mundo dos possíveis duendes lunares.

Ariadne nos mostra a grandeza da poesia de Ângelo vista pelo ângulo do barroco, pois segundo suas observações, "não se pode falar sobre o barroco sem mencionar Góngora e seu poder criador, com toda sua influência sobre poetas de várias gerações, de ontem e de hoje, de que são exemplo: Gregório de Matos num Brasil ainda colônia e Ângelo Monteiro no Nordeste da segunda metade do século 20."

Tem razão Maria do Carmo Tavares de Miranda quando diz que "todo caminho é experiência, é tempo." O poeta continua o seu caminho como viandante, em contínuo movimento e passagem.

As buscas de Ariadne enriquecem-nos, ensina a todos nós sobre o Barroco e a arte, Góngora e a Poesia e vai até pelos meandros da poesia metafísica ou barroco Inglês.

Olhando de longe a arquitetura poética de Ângelo, surgem na lembrança versos que não são para compreender, mas para sentir. Estes, por exemplo, que estão no livro Rapto das noites": "Quem, senão ele, inflamará a âncora/ Que pende sobre a neve adormecida?".

Publicado no Jornal do Commercio

Autor: 
José Mário Rodrigues

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.