A Filosofia de Ponta ou A Lógica do Chifre

A filosofia no Brasil, segundo as últimas informações do mercado, - pois há também o mercado do pensamento - saiu direto da Idade da Pedra para a Idade da Ponta. A filosofia foi verdadeiramente inaugurada: com ponta, sem passar pelas mediações das escolas filosóficas ou dos problemas por elas suscitados. Melhor dizendo: ela literalmente despontou, mas sem perder a ponta. Se há tecnologias de ponta, por que não uma filosofia de ponta? São Paulo, mais uma vez, se mostra a locomotiva do Brasil. Porém uma locomotiva de ponta mais agressiva, mais mobilizadora, mais moderna, em suma, como requer uma filosofia à altura das exigências tecnológicas. Uma filosofia que, pelo menos, cheire a primeiro mundo.

Hegel mais Wittgenstein passados por um refino irão constituir, um com a sua lógica, outro com a sua dialética, dois excelentes auxiliares para que uma filosofia adquira a mais excelente das pontas. Problemas existenciais ou metafísicos não passam de entraves perigosos no caminho da filosofia para a ponta. Pois sem ponta - e não ponte - não pode, segundo os novos sábios, existir filosofia.

Uma postura mais que importante nesta filosofia consiste, se se quer adquirir uma visão mais abrangente do mundo e do homem, em tomar o café da manhã com Presidente da República de Plantão. Sem o café da manhã com o Presidente a filosofia jamais pode amanhecer de todo. O verdadeiro amanhecer filosófico deve estar sempre à sombra do poder. Pois conhecer é poder: os sofistas já pregavam, na antigüidade, esta sábia doutrina.

Outra postura necessária é o refinamento técnico. Não é só o petróleo que precisa de refino; a filosofia que se preze deve ser, antes de tudo, refinada. Pensar é refinar o pensamento para que ele ascenda à condição de pensamento de ponta. O filósofo moderno autêntico não se arriscaria a desprezar uma mímesis: aquela que o aproxime da lição dos computadores, pois compor e recompor os dados com competência é mais importante que transpor os abismos colocados pelo pensamento. Um Pascal, um Santo Agostinho, um Kierkegaard ou um Nietzsche, sob esse aspecto, se assemelhariam, se muito, a animais pré-diluvianos. Mergulhar nos mistérios da existência, questionar a essência das coisas, ou propor novos valores não devem, definitivamente, ser tarefas de uma filosofia de ponta.

A política, em primeiro lugar, deve ser redefinida. E redefini-la é ter sempre o corpo aberto para todos os ventos novos, e os ventos novos só podem soprar numa só direção. Alternativas diferentes das consagradas nas agendas do dia poderiam ser levadas à conta de obscurantismo. A postura camaleônica torna-se, portanto, condição inarredável do exercício filosófico.

Mas quando a metodologia se transforma num artefato facilmente manipulável por todo aquele que estiver afinado com a lógica de um sistema, que restará para a filosofia? Quando a história toda vira uma reengenharia de probabilidades, o que fazer com o factível ou com o imaginário? O que fazer com o ethos humano, se a ética terá de caminhar de acordo com os interesses vigentes? Se são estes, doravante, que devem regular a conduta dos indivíduos e das comunidades? O que fazer, também, com a antropologia quando o homem não representa senão o último produto de um mercado produtor de bens e valores? Como lidar, finalmente, com os valores quando sua relação com o conhecimento parece dispensar a mediação do sujeito humano?

Onde o lugar da poesia, para o horizonte filosófico, quando o refinamento do último modelo bastará para suprir a morte da linguagem? Que fazer com a palavra quando as cifras se tornarão suficientes para preencher qualquer ausência de significação? Todas as posições, à direita ou à esquerda do espectro ideológico, não passando de variáveis, o que fazer tanto com os atos como com os fatos?

Sim, o que fazer? Ora, agachar-se para receber nos traseiros os raios da última esperança prometida: sob as pontas douradas das estrelas, os chifres do grande Minotauro - símbolo máximo do Poder - elevarão suas pontas sobre a terra pejada de súditos do nada, já que para uma filosofia de ponta só se poderá esperar, unicamente, uma lógica do chifre.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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