Bento XVI: Magnificat

Depois do grande papa morto, João Paulo II, o Espírito Santo mais uma vez nos surpreende com a eleição do cardeal Joseph Ratzinger, que assume o papado com o nome auspicioso de Bento XVI. Temido e detestado por sua inflexível ortodoxia - como se fosse mau ser ortodoxo na Fé - o novo papa infelizmente não corresponde ao estereótipo iluminista, desejado por tantos, de progressista, não lhe restando, afinal, nada mais que o negro epíteto de conservador...

Tal como seu antecessor histórico, Bento XV, incompreendido durante a primeira grande guerra, por não ficar ao lado de nenhuma das duas facções em combate, mas se mostrar contra a guerra em si mesma, o novo papa contará fatalmente com o mal estar de duas pragas materialistas do nosso tempo: o marxismo e o capitalismo. Do primeiro por reduzir todas as dimensões espirituais à hegemonia do econômico e à massificação ideológica da sociedade, e do segundo por não conhecer outro sentido senão o consumismo e a relativização de todos os valores que enobrecem a vida humana.

Todo papa detém o privilégio único de estar acima tanto das meretrizes (as quais, segundo Jesus, precederão muitos no reino dos céus), - que dependem de quem as pague pelos seus favores, - quanto dos políticos (aos quais não foi prometida nenhuma bem-aventurança evangélica), que necessitam do mercado de votos para chegar ao poder. Como é portador de um poder desarmado, que independe quer dos apelos da força, quer dos requebros da sedução, o novo papa só dispõe de uma couraça - a da Fé - e de um escudo: o da pregação do Evangelho. Para os que não acreditam em nenhuma das duas, não restará outro recurso senão ranger os dentes contra a muralha do nada.

Numa cultura marcada por concessões de toda a espécie, em que se vende a alma já sem ajuda de nenhuma anestesia, não é de bom tom lutar por princípios, se todos os princípios valem o mesmo. Também não é de bom tom reatar a cadeia da tradição para os que não valorizam a transmissão permanente de um legado. Se há tradições, por que não as envilecer? Se há ritualidades, nessa tradição, por que não descaracterizá-las até à barbárie?

Nessas circunstâncias o papa Bento XVI é conhecido como teólogo eminente e como cultivador da música, o que no mínimo anuncia a possibilidade de, quem sabe, vir a ser um renovador, ao mesmo tempo, da liturgia da palavra e da liturgia do canto, a qual, pelo menos em nosso meio, chegou ao seu nível mais rasteiro, sobretudo na versão aeróbica, saltitante e vazia que conhecemos.

Também sua compreensão clarividente das culturas, enquanto filósofo, pode se constituir numa forte ameaça aos expoentes de um multiculturalismo irresponsável que, sem levar em conta as diferenças, deixa de considerar, por exemplo, o papel inquestionável do cristianismo na cultura ocidental. E isso sem significar, obviamente, bem o sabemos, uma negação ao diálogo inter-racial e inter-religioso com outras culturas, como a hipocrisia de uma certa mídia faz questão de difundir com má fé explícita.

Os que só conhecem um único evangelho - o da pobreza de todos os horizontes - com certeza se decepcionarão com este papa. Se acham indispensável às suas vidas o abastardamento e o nivelamento de todas as coisas por um único critério - o dos modismos dominantes - de duas uma: ou chorarão a oportunidade perdida de, mais uma vez, enganar o mundo, sob o manto de ideologias salvadoras, - ou tentarão fazê-lo calar pela guerra implacável da contra-informação ou pelo mais impiedoso silêncio. Mas haverá sempre um ramo de oliveira sobre todos os dilúvios porventura existentes neste mundo: a figura branca e imponderável do papa.

Ângelo Monteiro 
Escritor e professor de Filosofia da UFPE.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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