Roteiro e chaves d’a Pedra do Reino

I

“Guardai o roteiro e lembrai-vos da sua chave que está nas letras e no mapa: três do lado direito, três do lado esquerdo e a Onça do meio, no coração do coração dos três. Achada a entrada o resto será fácil: Na primeira Sala da furna de pedra, está a primeira Urna de prata, e dentro dela, a Onça Malhada de Ouro. Na segunda, uma Corça de prata, guardada por um enorme Gavião de ouro, com as asas de diamante. Na terceira, a Onça Negra de diamante e carbúnculo, sustida pela Onça Castanha de ouro. Guardai bem tudo isso, pois os dois picos de pedra guardam o todo do Terrível. Com o esconjuro do Sinal-da-Cruz e a Sagrada Pedra Cristalina. Amém”.Ariano Suassuna

A Pedra do Reino representa para a Literatura nacional brasileira o mesmo fenômeno que Robinson Crusoe representa para a literatura nacional inglesa e as Mil e uma Noites para a literatura nacional árabe. Cito os exemplos inglês e árabe, na conta de exemplos decisivos, não por mera analogia, pois poderia fazer inúmeras, mas apenas para mostrar o elemento fundamentalmente novo introduzido por esta obra-prima, que é A Pedra do Reino, na literatura nacional do Brasil. Esta obra não é, conforme se poderá ver, uma obra como muitas outras, alinhadas entre aquelas que podem ser representativas de qualquer literatura, por valores intrinsecamente artísticos projetados dentro do quadro cultural de uma certa época. Porque não se trata, no caso presente, nem mesmo de uma obra-prima no sentido especificamente literário. Mais nos parece uma coisa desmesurada, feita especialmente para confundir todos os padrões costumeiros mediante os quais classificamos, mais ou menos de conformidade com certos valores, as grandes obras surgidas num determinado período histórico. O livro de Ariano Suassuna está na linha das grandes revelações míticas de um povo, muito embora não se trate de obra especificamente religiosa e, como dissemos mais acima, não se tratar também de obra especificamente literária. Infelizmente esta palavra revelação é palavra de entranhas recônditas e misteriosas, e não poderá, como muitas outras, ser redutível a conceitos; e por ser palavra inconceituável, vale mais pelo que tem de indizível do que pelo que tem de comunicável. Pois ela é dessas palavras perturbadoras que só podem ser percebidas além da órbita discursiva. E eu me sinto na mesma situação de Thonnard ao analisar a filosofia de Nietzsche, o qual confessou a dificuldade de submeter a uma análise uma filosofia que mais se parece com uma revelação. E por não se tratar apenas de uma obra perfeita e acabada, A Pedra do Reino é um caso similar ao provocado pelo Zaratustra, de Nietzsche, de quem Ariano sofreu, aliás, a par dos profetas da Bíblia, uma das maiores influências da sua vida. E diante d’A Pedra do Reino me coloco sob a mesma perspectiva de espanto em que se colocou, a despeito dele mesmo, o historiador da filosofia Thonnard diante da filosofia de Nietzsche. Quando eu disse que A Pedra do Reino não pode ser encerrada no âmbito da literatura, quis dizer exatamente isso: que ela não possui uma mensagem linear e definida, que comumente costuma acompanhar certas obras importantes; e não possui uma mensagem linear e definida como não a possuem de maneira idêntica, obras como Os Sertões, o Grande Sertão: Veredas e o Dom Quixote. E A Pedra do Reino, por sua patente proximidade familiar, seria o Dom Quixote brasileiro. O escritor Maximiano Campos foi quem primeiro teve a coragem de compreender e assinalar a grandeza do livro, ao alinhá-lo na categoria das obras maiores. Por isso Maximiano Campos reconheceu que “Ariano Suassuna não limitou o mundo à visão do Sertão Nordestino, mas, através dessa visão de criador, fez do Sertão um palco gigantesco onde são representados, através dos seus personagens, os dramas da condição humana”. É ainda de Maximiano Campos a observação de que “ao lado da história principal, existem outras, correndo paralelas. Isto faz desse livro de Suassuna um romance dentro do qual existem outros romances, formando um mural onde estivessem retratados o Sertão e o mundo, em cores fortes e reais, apesar de todos os sonhos e loucuras de que está repleto”. Ainda, numa terceira observação, diz-nos Maximiano Campos: “A Pedra do Reino se assemelha com o Apocalipse, porque é, também, além de um romance, uma profecia”. Pois esta obra não se resolve apenas numa clássica dualidade de exterior e de interior; de linhas e entrelinhas; de forma e conteúdo. Pois ela não possui apenas duas faces: uma clara e outra oculta; aquilo que o autor quis dizer e aquilo que ele quis ocultar. A sua face é, pelo contrário, tripla e não dupla, como o quer D. Pedro Dinis Quaderna, o Decifrador.

Há na Pedra do Reino, portanto, três sentidos, além do sentido literal das palavras e das situações: o poético, o filosófico e o sagrado. Dela podemos extrair, simultaneamente, uma poética, uma teoria do conhecimento e uma revelação do Divino. Deus se manifesta, teofanicamente, através da Onça do Sagrado; Deus, finalmente, nos dá o seu Logos, através de uma teologia de transcendência, e de sacrifício, em que predomina mais o aspecto sacrificial que cultual, numa transposição surpreendente dessa religiosidade, triunfalista e popular ao mesmo tempo, que caracteriza e assume profundamente o caráter nacional da nossa sacralidade. Deus se revela à Quaderna, Profeta e Decifrador, não como um Deus amaciado pelas facilidades do urbanismo contemporâneo, um Deus amolecido e aquecido pelas nossas estufas burguesas, já bastante familiarizado com as transcendentes técnicas de comunicação, mas um Deus, sim, que se nos revela, sob a intercessão profética de D. Pedro Dinis Quaderna, judaica, moura, sertaneja e tapuiamente, como o Adonai, o “Jaguar Sertanejo do Terrível”, a “Onça Tapuia Negra e Malhada do Divino do Sertão”. É a esta Deidade que Quaderna invoca, sob a forma de Onça Malhada e Divino Jaguar, em todo o terrível e incomunicável de sua transcendência, para que venha inflamar o seu sangue de monarca castanho e predestinado com o dom da fé, mesmo que esta fé venha para incendiá-lo e pulverizá-lo sob o império sagrado e esmagador de suas chamas. E com D. Pedro Dinis Quaderna apreendemos, entre outras, esta grande lição: a de que o fato de Deus estar mais próximo ou menos próximo não altera em nada a tragicidade fundamental do Homem, chamado como foi para se construir a si mesmo, fazendo da Graça apenas instrumento indispensável de sua redenção, embora não possa ser redimido apenas por ela e sem o concurso também de sua vontade. Muita razão tem Mircea Eliade ao postular em seu ensaio, “O Sagrado e o Profano”, que “o homem religioso não é dado; faz-se a si próprio, ao aproximar-se dos modelos divinos” e por esse mesmo motivo, “só se reconhece como verdadeiro homem na medida em que imita os deuses”.

D. Pedro Dinis Quaderna, como todo aquele que arrosta a responsabilidade trágica de um grande sonho, procura dividir sua loucura com dois personagens: o bacharel Clemente Hará de Ravasco Anvérsio e Samuel Wandernes. Mas jamais terá a felicidade de tê-los como apóstolos. Pois Clemente Hará de Ravasco Anvérsio e Samuel Wandernes representam apenas duas interpretações radicais de uma pequena e mesquinha verdade que, começando política e social, termina por cegar-lhes a visão da realidade a ponto de fazê-la, singularmente, deformada e parcial; parcial, não no sentido de incompleta (já que ninguém poderá ter a visão completa de coisa alguma) porém no sentido de limitar-se a apenas um dos múltiplos e infinitos ângulos em que pode ser tomado o mais simples objeto da realidade. São, portanto, dois seres incontaminados de qualquer grande devastação interior, e que jamais conhecerão a violação da Verdade porque acreditam cegamente na sua verdade medíocre. D. Pedro Dinis Quaderna propõe-se, por isso, na ausência de outro qualquer caminho, a ser o Decifrador, porque a complexidade do mundo não se resolve em nenhum esquema mental; o mundo não quer ser apenas objeto de vãos discursos, mas pede, acima de tudo, para ser decifrado. Pois as coisas que se apresentam diante de nós, não são apenas aquelas impressões imediatas que captamos delas; não são nem mesmo as nossas visões sobre elas; elas próprias sendo visões que pedem, para ser vistas na sua transcendência, por olhos de decifradores e não apenas de observadores frios e sem paixão. Quaderna é um Decifrador, porém um decifrador que sabe que a decifração tem infinitos estágios; que é interminável qualquer decifração; porque nenhuma esfinge esgota seu mistério da noite para o dia, salvo se for uma esfinge ao alcance tanto de decifradores como de não-decifradoes; ao alcance, finalmente, tanto dos apaixonados como dos absolutamente incapazes de se apaixonarem, porque desconhecem mesmo que existam objetos para uma grande paixão. Se Clemente e Samuel contentam-se somente com o seu quinhão limitado de pensamento, caberá a Quaderna, o Decifrador, o sentido dos sentidos. Em Cervantes Quixote e Sancho pedem a alguém que os interprete; Quaderna, representando a síntese das contradições dos seus dois mestres e antagonistas no jogo da vida, decifra-se aos outros e a si mesmo. A sua idéia de monarquia não deve ser, por isso, tomada apenas no seu aspecto episódico dentro do romance: a monarquia tem para ele o caráter sacramental de uma investidura. D. Pedro Dinis Quaderna no momento em que se coroa é posto numa nova ordem que passará a sacralizar, desde então, todos os seus passos, atitudes e idéias, conferindo-lhe o caráter que lhe permitirá a decifração de todas as coisas, consagrando-o para a missão que embasa e justifica a desaventura do seu destino de Cavaleiro. Tudo isto conforma-se ao ensinamento de Mircea Eliade que nos faz ver que “é a rotura operada no espaço que permite a constituição do mundo; porque ela é que descobre o ponto fixo, o eixo central de toda orientação futura”. Quero dizer que do seccionamento da realidade, operado por Quaderna, surge um ponto de referência, convergência e orientação para toda a sua vida: todos os seus atos passarão a ser assumidos sob o signo do sagrado, representado aqui pelo caráter carismático de sua monarquia, que lhe permite dizer: “Agora a fuga não é mais possível. Por mais mesquinho que eu me mostrasse daí por diante em relação à Coroa do Divino, o impulso dado para o alto fora definitivo. Eu não era mais D. Pedro Dinis Quaderna, fidalgo arruinado e pobre, escrivão e astrólogo do Cariri; era D. Pedro IV, o Decifrador, Rei e Profeta do Quinto Império e da Pedra do Reino do Brasil”.

O vivo diálogo teatral, característico do dramaturgo que existe em Ariano Suassuna, deixa sua marca no Romance, em que estão fundidos o picaresco, o trágico, o satírico, o épico e o lírico, todos esses elementos servindo de veículos expressivos da mensagem fundamental do livro, que radica, ao meu ver, em duas coisas: numa visão do conhecimento, incluindo o Divino, e numa antropologia do homem brasileiro. Clemente e Samuel representam apenas os dois pólos de um debate que ressoa no espírito de Quaderna. Debate, acima de tudo, antropológico, do homem brasileiro no seu apelo à irreverência e ao sagrado, estranhamente aglutinados no seu ser confundido entre o fascínio da autoridade e a inclinação para a mais desbragada e irresponsável desordem, e essa dicotomia refletindo a incapacidade básica do homem brasileiro de levar a sério a própria seriedade daquilo pelo qual muitas vezes consome sua existência. Essa eterna indefinição entre a gravidade mais austera e a mistificação mais desabusada constitui uma espécie de pedra angular do temperamento nacional brasileiro. Indefinição que não deve ser interpretada como ausência de caráter sociológico, tal como se pode depreender em “Macunaíma”, de Mário de Andrade, mas como a base mesma do caráter nacional. Além da preocupação antropológica, indiscutível na Pedra do Reino, principalmente se tomarmos em consideração o debate dos dois sangues e das duas tendências, em Samuel e Clemente, existe a tentativa harmonizadora de uma visão brasileira e mestiça do conhecimento, que pretende a fusão dos dois pólos deste debate através da figura de Quaderna. As discussões antropológicas são, por sinal, contínuas ao longo deste livro, e talvez a indefinição meio trágica do caráter brasileiro seja resultado dessa luta, por um lado, entre o senso de ordem do europeu tomado sob a sua modalidade ibérica, e a descontraída irreverência que parece fundamentar o nosso caráter de mestiços, e não mais só de negros, europeus e indígenas; luta psicologicamente representada por essas duas tradições, uma nostálgica de suas origens e outra ainda nova, surpreendente e selvagem nas raízes do seu processo. E esta antropologia, que está no bojo das mais sérias preocupações de Quaderna, não se coloca apenas no seu aspecto meramente cultural e sociológico, mas se encontra enraizada numa verdadeira base metafísica, por projetar essa indefinição além do plano físico, no dilaceramento do homem brasileiro entre o apelo do terrestre e a danação do Divino.

Dois outros personagens da Pedra do Reino, Sinésio e Arésio, parecem ser os intérpretes já não de uma antropologia, mas da metafísica e da teologia de Quaderna. Sinésio e Arésio são como o anjo bom e o anjo mau, ambos completos e íntegros na sua virtude (no sentido florentino de virtù), que habitam o mundo de Quaderna, oferecendo-lhe uma dimensão que se opõe àquela dimensão efêmera representada por Clemente e Samuel: naqueles dois personagens a inquietação do angélico e do diabólico desvia a preocupação puramente episódica que ainda possa existir em Quaderna, o seu personagem principal. Sinésio é, de todos os personagens, o mais misterioso, e mesmo que Quaderna tente descrever-nos o seu tipo físico, Sinésio permanece como a mensagem do Indecifrável. A figura do rapaz do cavalo branco, com sua beleza subitânea irrompendo de sobre o seu cavalo, não pode nos convencer do ponto de vista de mero personagem. Ele nunca surge de todo, ou surge apenas para logo desaparecer. Num surgimento sempre imprevisto acompanhado de um desaparecimento inexplicável. Ele parece o eterno surgir e retornar do Mito. E sua presença de modo algum se parece com a presença dos personagens chamados a desempenhar o seu papel no espetáculo do mundo. É uma presença que permanece oculta, a despeito da lógica que, por algumas vezes, nos faz garantir o seu aparecimento físico e real, desse real que constantemente exigimos das coisas, mas que não é o real verdadeiro, o da presença real, mas o real pobre e precário da garantia positiva que nos pode oferecer o fenômeno. Daí que Sinésio, o Alumioso, nos pareça uma espécie de Filho de Virgem, como Chrisna e Jesus, aquele que é chamado pelo povo o Santo, o Puro, identificado pelo mundo como filho de D. Pedro Sebastião Garcia-Barreto, a quem cabe uma possível herança paterna. Jesus, também, foi identificado como o Messias profano, ligado a um simples episódio judaico, sendo visto como um filho de carpinteiro, pregador de um reino como tantos outros, e aceitado e compreendido apenas por isso. Sinésio parece chamado também a uma herança. Mas não será essa herança inteiramente simbólica? Na experiência mística, como se se tratasse de um recurso teatral chamado de interferência, (esse mal-entendido tão usado pelo próprio Suassuna em seu teatro) parece haver curiosamente uma misteriosa coincidência, que chega a superar o equívoco do mal-entendido, a ponto das duas realidades, a mística e a profana, se confundirem uma na outra. Acrescente-se que o Donzel, como o chama D. Pedro Dinis Quaderna, trazia nas costas “um manto vermelho, no qual estava bordado um grande Escudo com as mesmas armas da bandeira — as três Onças vermelhas em campo de ouro, e os treze contra-arminhos de prata em campo negro”. As três onças, todas vermelhas aqui por exigência da heráldica, ou para confundir através das cores os atributos das três pessoas da Divindade Única da Onça Malhada do Divino, são como sabemos a concepção de Quaderna sobre a Trindade Divina, base de sua teologia. Observem em seguida a ligação da bandeira de Sinésio com a bandeira do Frade, meio predicador e guerreiro, que é Frei Simão, bandeira que traz um pombo volante no centro e uma Coroa Real encimada por uma esfera e uma cruz, como se coubesse a Frei Simão o anúncio da realeza e da transfiguração de Sinésio. Observem, ainda, que o personagem é dado como o ressuscitado, como encontrado despido, etc. e note-se a ligação desse mito com o Cristo despojado de suas vestes, acompanhado do caso de sua Ressurreição. E que dizer “daquela moça meio ausente, absorta e sonhosa, de cabelos castanhos e olhos verdes”, que, a modo de timbre, encima o escudo de armas? A figura dessa mulher mostra a estreita correspondência com a imagem teológica da Igreja. A moça Heliana, aquela que passa estranhamente mel nos seios, apresenta maravilhosa identidade com o papel maternal da Igreja, que também passa mel nos seios, na sua pedagogia de salvação, para que a mensagem dos seus seios seja mais facilmente sugada pela boca sedenta de Palavra e de Vida. Isso não impedindo que a moça Heliana seja, conjuntamente, uma figura poética, imagem da poesia, e ainda uma mulher real, cujo amor por Sinésio será certamente o amor de uma mulher por um homem.

É justamente sobre Sinésio, o Alumioso, que se trava o rápido diálogo entre o estranho frade acangaceirado, que é Frei Simão, com o Cantador Lino Pedra-Verde, que primeiro lhe dirige a palavra:

— O senhor é Frei Simão, o frade da Serra do Rodeador e da Pedra do Reino? O rapaz que veio com o senhor é o nosso Prinspo, o Santo do cavalo branco, que vem comandar os Sertanejos para nossa guerra do Reino? É verdade que ele veio para vingar o Pai, parra provar que é o Filho e, ao mesmo tempo, trazer o fogo do Espírito Santo para acabar com as injustiças e os sofrimentos do mundo?

É então que Frei Simão responde, ao mesmo tempo que o Povo, ao cantador Lino Pedra-Verde:

— Vocês perguntam se o rapaz é o príncipe... Quem sou eu para responder? Pode ser e pode não ser (...) Pode ser e pode não ser, e vocês mesmos avaliarão, pelo que acontecer, daqui por diante, se ele é ou não é o que vocês esperam (...) Grifamos as palavras da resposta de Frei Simão apenas para tentar situar que essa grande alegoria, que é A Pedra do Reino, envolve um enigma a ser decifrado, e que esse enigma é Sinésio.

Depois dos aplausos do Povo a Frei Simão, depois desse diálogo enigmático em que o Povo “também com ar de doido e tanto mais impressionado porque entendera muito pouco das palavras do Frade, começou a beijar as mãos e a fímbria do hábito branco de Frei Simão” — e depois de uma confusão de sinos tocados prodigiosamente por mãos invisíveis, somos jogados numa verdadeira hierofania, em que há uma visão indiscutivelmente teofânica que vem completar a teologia de Quaderna:

“Por entre chamas, resplendores e estalos de raio, apareceu no Céu uma gigantesca Onça Malhada, de pêlos cor de ouro, cabeça negra e malhas vermelhas. Acima dela, via-se o enorme Gavião Real, aflando asas e criando, com isso, uma ventania de fogo, parecida com as ventanias incendiárias da caatinga. Abaixo dela, na primeira linha, estavam duas outras Onças, uma negra e outra vermelha e, abaixo destas, sozinha, uma Corça Parda. A Onça tinha o corpo ferido e resplandecente de chagas e malhas, e tudo estava banhado, como na bandeira desenhada pelo meu irmão, por uma chuva de gotas de sangue, que eram recolhidas embaixo por um enorme Cálice de ouro em forma de Taça”. Observem neste texto a presença característica do fogo e da luz, comum em todas as teofanias. Depois das glórias da transfiguração do Sagrado, sempre surge o seu oposto de sombra; o momento da paixão e da irreparável cruz que sempre costuma suceder às visões beatíficas: “E o Gavião de Ouro do Divino foi substituído pelo cruel Gavião da Morte”.

É, finalmente, o enigma de Sinésio que faz Lino Pedra-Verde baralhar todos os acontecimentos para conformá-los à sua visão, — o que não deixa de ser uma seleção própria da exigência do Sagrado, — que o força a dizer que tudo é uma coisa só. Esse tudo é uma coisa só demonstra a simultaneidade com que os diversos planos da realidade se ajustam para dizer o Mito, que é sempre um dizer enigmático, ocultador, e, portanto, filho da Esfinge; e que, por ser um dizer sempre renovado, não traz consigo nenhum processo de exclusão ou de separação de coisas ou fatos. Mas, pelo contrário, integra os múltiplos ângulos de uma realidade ao assumi-los num novo grau. Por isso Lino Pedra-Verde não é entendido nem por Clemente nem por Samuel, cada um deles prisioneiro dos dados oferecidos pela evidência. Tal como D. Pedro Dinis Quaderna, Lino Pedra-Verde não é um homem de evidências, mas um buscador daquelas coisas que se escondem para além dos véus da evidência, pois nada nos faz garantir até que ponto a evidência pode servir de prova para uma Realidade que é infinitamente maior por aquilo que nos oculta do que por aquilo que nos revela. Aliás, não é de hoje que se costuma confundir a evidência com a própria Verdade. Aos que a confundem eu direi que a mentira é mais fácil de ser provada do que a Verdade, porque esta última é muito menos evidente, muito mais velada, por nela realizar-se a plenitude do Imponderável, que mais se oculta do que se mostra, como negação que é de toda evidência. Não há coisa mais difícil de ser provada do que a Verdade. Contrariamente ao que, mesmo em tom de galhofa, disse certa vez Oscar Wilde: “Até a Verdade pode se provada”. Porque é curioso, a Verdade, além de não ser evidente, não é verídica; pode ser vera, apesar da redundância, mas jamais verídica. Os mártires gerados, em todos os tempos, pela Verdade, tomo-os como a maior garantia desta minha afirmação. Não haveria mártires, se as idéias ou a causa pelas quais se batessem ou morressem, pudessem ser provadas. E a Verdade, caso fosse demonstrável, correria o risco de perder o número dos seus apaixonados e dos seus mártires. Dou, por isso, infinitas graças ao Senhor da Espera, por não poder afirmar nenhuma evidência acerca de Sinésio, o Alumioso. Mas Sinésio pode muito bem figurar o Espírito Santo, o Gavião de Ouro de D. Pedro Dinis Quaderna, já pela sugestão da pomba volante na bandeira conduzida por Frei Simão, já pelos elementos decifráveis e indecifráveis ao mesmo tempo, sugeridos pela sua missão. Sinésio pode ser aquele que, Puro, vem purificar; aquele que, Livre, vem resgatar; aquele que, Ressuscitado, vem ressuscitar o Reino; aquele que, representando a Justiça, vem salvar o trigo do joio e, finalmente, purificar o joio. Identifica-se, por tal razão, mais com o Espírito Santo do que com o Filho, pois vem para completar a obra do Filho.

 

II

Em toda essa alegoria, que ora se esconde, ora se mostra, sob o véu dos acidentes romanescos, permanece a unidade de sentido que liga Quaderna (o Humano) a Sinésio (o Divino), aquele de quem nem mesmo Quaderna se apresenta como completo decifrador. São como as duas faces da Gesta Infinita que é a História, que compreende a Queda conhecida e a Salvação suspeitada. O drama de Quaderna é o drama do homem não contente com a Queda que marcou a sua carne e que busca, por isso, sagrar o seu sangue com o estigma divino da Realeza que, no caso, representa a Graça. Não é intranscendente o fato de que D. Pedro Dinis Quaderna sagrou-se rei com suas próprias mãos. Não é a Graça, além do dom de se sentir apontado para a Coroa, também, e sobretudo, uma conquista? A Coroa que vai nos sagrar reis e príncipes não terá que vir manchada por uma longa história de sangue que possa embeber a Pedra, a Pedra da fé e da Fortaleza, o sangue que é como o símbolo vermelho assinalando a nossa dolorosa porém gloriosa encarnação? Pois só o sangue é capaz de aplacar a fúria dos deuses que se debatem em nossos abismos, personificações que são das nossas potências superiores que clamam por sua vitória contra as potências frágeis. Como vimos mais acima, a palavra Monarquia não deve ser aqui compreendida apenas no sentido literal, todavia como elemento sacralizador por excelência da natureza humana. Da natureza humana sacralizada pelos estigmas do prometido Reino. Como não deve passar despercebido o fato de que esse Reino é erguido sobre uma Pedra, a Pedra que simboliza o permanente contra o contingente, o eterno contra o efêmero, imagem excelente para exprimir a consistência de todas as coisas. Mas não basta ser sagrado pelo carisma real da Graça. É preciso também beber, sacramentalmente, o vinho guardado no núcleo desta Pedra, submetida ao Reino da Graça; o vinho que nos permitirá, como permitiu à Quaderna, a grande visagem da Onça Malhada do Divino, através de nossa participação na embriaguez do Sagrado; o vinho que opera em nós, mais do que a catarse, a superação de toda a contingência e a compreensão do Maravilhoso e do Terrível. E aqui a preciosa associação, comum na revelação religiosa, do vinho com a participação em um novo estado, do vinho como a presença em nós do Divino e de Deus.

Mesmo sob o ângulo literal A Pedra do Reino nos mostra, através do relato das suas ocorrências e peripécias, originalmente transpostos em folhetos nordestinos de cordel no lugar de capítulos, não uma mera representação romanesca, mas ao utilizar todos os ingredientes de um verdadeiro espetáculo, inseparável da obra de arte, exprime nada menos do que a dança ou o jogo tragicômico da Vida. O Sertão que serve de moldura à Pedra do Reino não é apenas o Sertão: é o mundo. E é o próprio Quaderna que traduz a nossa impressão: “... a parte deste mundo que me fora dada — o Sertão — não era mais somente o “sertão” que tanta gente via, mas o Reino com o qual eu sonhava, cheio de cavalos e cavaleiros (...)”. E a intervenção de alguns personagens aparentemente secundários na narrativa, como é o caso de Pedro Beato, Pedro Cego, Nazário e Lino Pedra-Verde, não é tão secundária como se possa pensar, porque eles desempenham, muitas vezes, como súbitos clarões nas partes mais sombrias do livro, o papel clarividente de profetas, arautos ou intérpretes desse Reino misterioso que Quaderna, apesar de ser “o descendente, na linha masculina e direta, de D. João Ferreira Quaderna, mais conhecido como El-Rei D. João II, o Execrável”, não poderá decifrar sozinho, apesar de tratar-se do seu decifrador-mor; Quaderna, a quem na sua mais doce que sórdida velhacaria, coube a sonhosa missão de fazer do seu Destino uma “desaventura”, neologismo quadernesco que compreende simultaneamente aventura e desventura, e que exprime a caminhada, ambígua e contraditória, do homem sempre impelido para a Queda, a despeito desse otimismo enganoso porém glorioso que o faz permanecer cavalgando sobre o caminho movediço de todas as coisas. Eu chamaria esse otimismo de Quaderna de otimismo trágico. Repito aqui a expressão otimismo trágico (a primeira foi num estudo sobre Maximiano Campos), porque D. Pedro Dinis Quaderna exige que eu a repita, para designar exatamente o tipo de otimismo que o caracteriza, e para distingui-lo de outro que é o otimismo ingênuo, o qual, na sua pretensa inocência, busca eliminar ou negar o conflito e a dor realmente existentes na condição humana. E é justamente aquele otimismo que impele Quaderna a confessar: “A Raça piolhosa dos homens e dos lacraus peçonhentos que eram os animais, aparecia-me agora, como uma Cavalgada muito bem organizada, realmente por Reis, Valetes, Rainhas, Damas e Bispos, montados a cavalo, uma Cavalgada bela, gloriosa, cheia de espadas e bandeiras (...). Por isso, o mundo não me aparecia mais como um animal doente e leproso, como um lugar sarnento e pardo, nascido do Acaso, mas sim como um Sertão glorioso, fundado na Pedra, ao mesmo tempo harmonioso e ardente”. E essa compreensão do otimismo quadernesco, se se contrapõe a um otimismo falso e róseo dos homens pouco exigentes, também se opõe, ferozmente, ao derrotismo ainda mais falso daqueles que condenam o mundo apenas para melhor se locupletar das suas delícias.

Chega, finalmente, o momento em que D. Pedro Dinis Quaderna vai ser julgado pelos títulos brasonados do seu grande Sonho, pois nenhum grande sonho conseguiu ficar impune. E para julgar o sonho nada melhor do que a frieza analítica da Razão. E o Corregedor, imagem da Lei, é o representante máximo dessa razão. Com a sua mente lógica, ele não buscará outra coisa senão a interpretação lógica e racional de acontecimentos nos quais Quaderna só vislumbra as vertigens do maravilhoso. Se houver uma grande figura desse tipo de Racionalismo, ela não pode estar mais genialmente personificada do que na figura inquisitorial por excelência do Corregedor, que quer de Quaderna não sua verdade, mas um mísero depoimento onde esteja expurgada e exorcizada qualquer tentativa épica de estilo régio, que é o júbilo maior da atribulada existência de D. Pedro Dinis Quaderna.

Mas D. Pedro Dinis Quaderna, mesmo nessas “astrosas e fatídicas circunstâncias”, nunca deixa de apelar para as delícias do seu estilo régio. E como um bom velhaco, procura agir com a Vida usando as mesmas armas com que a Vida sempre o procurou lograr. Isto é, responde com um Sonho mais alto, e sublimado pelo mais alto fingimento, a todas as agressões ao seu Reino, partidas do Corregedor que, nesta hora, representa o Mundo e também as usurpações da Vida. Da Vida que primeiro nos enreda em seus labirintos e depois nos exige contas se, por acaso, resolvemos decifrar as esfinges que ela própria colocou dentro deles para que nos devorassem. E, por isso, D. Pedro Dinis Quaderna, procura fugir, ao máximo, das evidências mais ao gosto do Corregedor, e utiliza, inclusive, a mentira para escamoteá-la; porque a mentira, a grande mentira, não deixa de ser uma tentativa arbitrária e fantástica de superar a mesquinha realidade mais ao gosto dos corregedores do que dos espíritos epopéicos e régios como o de D. Pedro Dinis Quaderna. Inventa por isso que está cego, e ainda quando suas contradições se tornam por demais flagrantes, para que sejam negadas, ele transmuta essa “cegueira” numa “cegueira profética”, com poder suficiente para transfigurar o mundo e iluminar as armadilhas forjadas por ele, e pela mente dos corregedores, seus guardiões, apenas para o destruir. E a mentira convicta de D. Pedro Dinis Quaderna tenta, então, convencer o Corregedor de sua “cegueira”: “É por isso que o Sertão, nos meus maiores momentos de cegueira profética me aparece como esse Reino pedregoso de que lhe falei, Reino por onde erro eu, agora, como o Valente Vilela, mas também destroçado, processado, vagabundo, perdido, extraviado e cego, incapaz de ver outra coisa a não ser esses Lajedos, essas Caatingas espinhosas, esses morros descalvados, essa Raça Sertaneja e esses bicos, semelhantes aos que, às vezes, aparecem em nossos pesadelos”. Mentira que, finalmente, lhe serve como um grande recurso para a definição do seu estilo régio: “O que é mais curioso, porém, é que o olho romântico e queimado, que é o direito, depende do olho clássico e vidente, que é o esquerdo (...). Também se eu não gastasse toda a prata e todo o sol do meu sangue com o olho clássico e vidente, o outro não seria capaz de enxergar a feiúra e a miséria (...)”. E, convenhamos, que tal mentira lhe serviu misericordiosamente para nos dar não somente uma poética, para não dizer uma estética, mas uma curiosa teoria do conhecimento.

Quaderna deixa muitas vezes a narrativa suspensa como uma mago que fizesse dela um pretexto ilusionista para manter o Corregedor enfeitiçado com o espetáculo. E isso é fácil de verificar num cotejo com diversas partes do livro, que passarei a citar:

“Sr. Corregedor, lembro mais uma vez que sou um epopeista, de modo que tenho certas liberdades que me são outorgadas pelo Gavião macho-e-fêmea e sertanejo que me serve de Musa. Entre essas liberdades, está a de adivinhar e profetizar as conversas que não ouvi” (pág. 398).

“D. Pedro Dinis Quaderna, isso tudo que o senhor me contou agora é verdade, mesmo, ou é ‘estilo régio’?”. Quaderna responde ao Corregedor que não seria nada mais que ele, por sua vez, aumentasse um ponto às histórias que fosse contando a ele, Corregedor, pois segundo Quaderna, “é uma característica das epopéias essa de seu fogo vir sempre coberto de fumaça” (pág. 411).

“Se eu quisesse impressionar o senhor, poderia inventar um final mais glorioso”( ). “Infelizmente, porém, Sr. Corregedor, eu tenho que pedir a toda essa gente que se imobilize aí, nessa atitude, meu irmão com o braço no ar, o pessoal de olhos aboticados e de boca aberta, a bandeira contra o céu, etc., porque tenho, agora, que passar a Estrada que nos liga à Vila do Estaca-Zero e contar algo de importância fundamental que está acontecendo por ali”(pág. 332).

O Corregedor não percebe que está sendo enredado pelo espetáculo. E é todo um espetáculo montado por Quaderna para exercer sua grande magia sobre o interlocutor. Suspende o espetáculo onde e como quer; dirige as cenas como senhor absoluto da farsa, sem de todo se deixar enredar ou se envolver pela trama quase inteiramente inventada por ele, Quaderna, a darmos crédito de que sua história seja de fato verídica. Aliás, a grandeza de Quaderna reside no próprio fato de não ser um escravo do factual, do verídico, como aqueles que, mais realistas que o rei, não conhecem outra coisa senão a lastimável verdade de sua coerência medíocre que nada tem a ver, em definitivo, com a Verdade. De súbito Quaderna pára (exatamente no prelúdio da Sagração do Gênio brasileiro desconhecido) para dizer ao Corregedor, já seduzido ou tocado pela história, (embora sempre preocupado com o verídico, com o lado seguro da questão, com o mero depoimento, com o inquérito), — que já chegou a hora de pensar, de lançar as cortinas do epílogo sobre o tumulto da miséria e da beleza dos homens, sob o magnífico argumento de que é uma tradição dos romances epopéicos ficarem incompletos. Aliás, não é esta incompletude, acrescentamos nós, a marca fundamental do nosso Destino, sempre tenso e inacabado, sempre desgarrado e nunca encontrado, que jamais se completa de todo e sem nenhum fim seguro nesta Terra Escura do Terrível? Essa incompletude não traz consigo um apelo metafísico mais forte: o de que o destino do homem não se cifra apenas no raso dos seus conhecimentos, nas malhas frágeis de sua historicidade, na precariedade dos seus depoimentos, como quer o Corregedor de Quaderna?

E o próprio Quaderna nos convence de suas razões: “Imperceptivelmente, sem que eu quisesse ou notasse isso, o aspecto real e político de todos aqueles acontecimentos foi ficando de lado e cedendo passo a passo ao aspecto poético-literário, muito mais real e embandeirado que o outro”.

Vejam agora as duas lógicas: uma racional e dedutiva, a do Corregedor, e outra, poético-mágica, a de Quaderna, neste trecho expressivo de diálogo:

— O que o senhor faria num caso como este? Fale francamente, D. Pedro Dinis Quaderna! Você encerraria o caso, permitindo que eu abandonasse, aí, o depoimento, ou quereria ouvir o resto?

— Não sei, senhor Corregedor ... Eu nunca fui juiz! Por isso, sou capaz de achar que podia ficar tudo como está, porque talvez fosse melhor para todos nós.

O Corregedor acredita no “resto” que sobra a ser dito sobre o ser de Quaderna. E, mesmo sob o ponto de vista de uma teoria do conhecimento, quem poderá dizer o “resto” sobre algo, ainda que este algo seja uma planta ou uma pedra? Não existe esta coerência, absolutamente segura, que o Corregedor exige da condição humana. Nem existe nenhuma verdade capaz de ser esgotada num mero depoimento datilografado, mecanicamente, durante um interrogatório, que busca apenas evidências, quando essas evidências não existem.

Para naturalmente safar-se das inquirições do Corregedor ainda tenta um último expediente quando, num certo passo do seu depoimento, referindo-se ao fim misterioso do romance de José Alencar, ele assim coloca a questão: “Se o caso fosse de estilo raso, Ceci e Peri morreriam de qualquer modo. Se morressem ali, na hora, afogados, já estão mortos enterrados, de velhos, agora, pois a história deles se passa no século XVI e não tem quem viva tanto no mundo. Eles morreram, então, velhos, feios, desdentados, coisa com a qual não me conformo de jeito nenhum. Mas se o caso é de estilo régio, então eles não morreram nem lá nem depois. Consumiram aquele amor meio espiritual e tarado que sentiam um pelo outro, e permanecem ali, possuindo-se um ao outro, na palmeira, num amor de divindades, vivos para sempre e eternamente jovens, imobilizados, naquele epopéico momento que é sempre o mesmo, sempre renovado a cada leitura”.

Quaderna, como se pode observar até agora, habita num verdadeiro mundo mítico. Aliás, o que ocorre com o mito, é possuir um tempo eternamente reversível, o tempo do sagrado, onde os acontecimentos exemplares, uma vez consumados, são permanentemente renovados e reassumidos em sua origem, diferentemente do que acontece com o tempo profano. Tem razão Mircea Eliade, quando postula, em seu ensaio “O Sagrado e o Profano”: “O tempo sagrado é pela própria natureza reversível, no sentido em que é, propriamente falando, um tempo mítico primordial tornado presente”. Volto mais uma vez a Mircea Eliade para endossar este trecho d’A Pedra do Reino que acabei de citar, e para concluir dizendo que este romance de Ariano Suassuna se entronca numa linha mítica, sem similar no gênero, em toda a literatura nacional, salvo, talvez, o caso de seu único antecessor José de Alencar, que parece uma antecipação de Ariano Suassuna, com os inesquecíveis exemplos de O Guarani e de Iracema.

Não pode, finalmente, passar sem uma referência o fato desta obra chamar-se exatamente de Pedra do Reino. Pois de Pedra são feitos os fundamentos das nossas casas e dos nossos destinos. A nossa fé e a nossa fortaleza repousam na Pedra, imagem da serenidade diante dos abalos e dos transtornos do mundo. Dela se constroem os nossos altares e as estátuas dos nossos santos e dos nossos deuses. Como dela, na remota antiguidade, se ergueram obeliscos, menhires e dolmens. Ele parece resistir ao tempo puramente sucessivo e que angustia o homem por seu caráter de irreversibilidade. Se bem que a Pedra seja em si própria irreversível, porque não precisa voltar sobre si mesma, imóvel, fixa e inalterável no próprio cerne do Mundo, em oposição às outras coisas que a envolvem, frágeis e efêmeras, no seu movimento para a destruição e para a morte. Idéia por excelência da permanência e da verdadeira segurança, ela é como o cosmos em oposição ao caos; é o fundamento de toda construção e, pela sua durabilidade, a imagem mais perfeita do Eterno. Pode-se falar de uma pedagogia da Pedra, como se ela nos quisesse mostrar, pela sua solidez e integridade, que o nosso Destino deve representar um dogma diante da Vida, afirmando-a contra o vácuo e contra o Nada. As montanhas e as grutas, que sacralizaram o berço de todas as religiões, não se esvaziaram ainda do seu fascínio sobre os homens, sejam eles pensadores ou poetas, religiosos ou sábios. E as sugestões de sentido religioso e poético, em que há a presença concreta e simbólica da pedra, são de novo, por essa razão, inesgotáveis.

Não foi sem séria significação que Deus deu ao Homem os mandamentos de sua Lei inscritos na Pedra. E as Tábuas de Pedra do Decálogo foram recebidas, também, sobre o cimo de Pedra de uma Montanha. E a Igreja de Cristo foi fundada sobre a Pedra de um homem e de seu testemunho: “Pedro, tu és pedra, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.

Os ventos se debatem contra a pedra, o sangue ensopa seus fundamentos, as águas correm e passam sobre ela, as tempestades se dilaceram contra os seus flancos, mas a Pedra permanece, porque é dura e eterna.

A Pedra do Reino, por ser de pedra, irá permanecer durante todo o tempo em que o sol se refletir sobre ela.

E a Onça Malhada do Divino, malhada porque reflete e contém todas as coisas, não parará de estender suas malhas luminosas sobre esta Terra Parda e este Povo Castanho, filhos do Poder de sua Divindade.

E esta obra traz consigo a dura permanência da Pedra, de uma Pedra erigida em Reino, e sagrada com o sangue, irmão no gênio, de Ariano Suassuna, seu autor, e de Dom Pedro Dinis Quaderna, seu personagem, e o gênio de ambos tem a força de todos os taumaturgos e mágicos, para mover as montanhas, mas não terá a de remover esta Pedra de sua própria construção e do seu próprio testemunho.

Ângelo Monteiro é poeta e professor de Filosofia da UFPE.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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