BARCAROLA

- I -

Cansei-me de não ser
de projetar-me apenas
a sombra sobre os espelhos 
das naus rotas pelo tempo.

E como seria eu
se dos escombros da aurora
restei-me sem naus e música,
cantando os solaus de outrora?

Velejando em priscos mares
que nunca vi nem verei
com a láurea de pirata
do verde que não roubei?

Que adianta mais viver
depois de ser sem ter sido
se me contemplo sem tempo
nos templos verdes de olvido?

Onde a irmã a sereia
a loira albina das ondas
que nas suas dobras envolva o
irmão das ilhas sem nome?

- II -

Terra plana sem ondas.
Navego sem mar. Que faço
senão procurar espaço
onde me afogue sem dano?

Sem dano ou planos e
sem ninguém nesta viagem
que exija de mim mensagem
que não serve para aqui?

Se eu sou a anti-mensagem
(cansei-me de prosaísmo)
e de mensagem só trago
a verde, e aberta, do abismo?

Senhores, não vos convido
porque iríeis manchar o verde,
que não tem culpa, de serdes
criaturas sem sentido.

Em cujo esboço gorado
a natureza perdeu
tinta e pincel, no traçado,
sem vos dar sequer um eu.

- III -

Com palavras de cor verde
quero açucenar a vida
a que vós, senhores, destes
um gosto de formicida.

Resta-me o canto, e o canto
foi tudo que me sobrou 
do que não tive ou perdi
no vosso mundo incolor.

Talvez sem o peso da vida
eu não fosse proprietário
do verde que eu não roubei
para o meu vocabulário.

Nem se eu possuísse naus
tivesse a palavra a força
de gerar em si a música
sem deixar de ser palavra.

Pois nossa missão é esta:
(quanto mais bela, mais rara)
fazer que o próprio mistério
se conceba em forma clara.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Proclamação do Verde

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.