CARTAS ÀS MÁQUINAS SENSATAS

As últimas coisas mansas
eu peço que a musa guarde:
certo vento rubro e torto
envenenou minha carne.

Por isso, não se perturbem,
quando eu for me desprendendo
dessas roupas já cansadas
de me vestirem no tempo.

Uma luz ignorada
impelirá seus corcéis
por corredores de sono
e labaredas cruéis.

Estarei abrindo os lábios
para novas litanias:
os mesmos lábios manchados
do carnaval desses dias.

Só me comove a vertigem
da vida a correr sem rumo:
crucificada de espera
num tempo que não consumo.

E o tormentoso silêncio
dessas chamas desprendidas:
velas acesas de espera
nos candelabros da vida.

Estou como um ser parindo
entre gritos, a mensagem
que não vem salvar o mundo
mas, bem antes, condená-lo.

Minha carne traz as marcas
se não de amor: de inimigo.
ai das máquinas sensatas
sob um ódio tão antigo!

Coisas podres, cuja calma
segurança me perturba:
para elas minha palavra
seja intolerante e rubra.

Em seu murado horizonte,
tão fartamente instaladas:
eu sou pouco, e minha vida
não basta para esmagá-las.

Sou tão pouco. Como um grito
de existir, rubro e confuso,
irá convencer um público
redondo de parafusos?

Móveis radares: meus gestos
são frágeis à segurança
das conchas, dos caramujos,
fechados sobre a esperança.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Proclamação do Verde

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