O mal da coerência

A coerência, de tanto se alicerçar apenas em si, deixando de lado os demais aspectos da vida, pode virar doença. Pois o medo ao menor tipo de estranheza e, sobretudo, ao paradoxo, se tornou a marca indisfarçável de qualquer postura ideológica ao se assenhorear de alguém.

Para o ideólogo, não para o homem de ideias, é como se o diabo fosse portador de uma exclusiva posição: à direita ou à esquerda do nosso lugar no mundo. Partindo de roteiro tão invariável, todos os caminhos deixaram de levar à venda, como no velho dito popular. Por isso nada mais coerente que as práticas inquisitoriais, quer religiosas, quer políticas, quando até os maiores seguidores de um ideário são tomados, de uma hora para outra, por hereges ou dissidentes ao discordar de um único ponto, se esse representar uma entranhada questão do dia: atira-se ou não pedras no gato da vez?

Dessa forma, o algoz de um lado, converte-se em herói para o outro. Defende-se e venera-se um Guevara — no sádico gosto de executar pessoalmente os seus prisioneiros — porque é um revolucionário, e ataca-se e despreza-se um Pinochet — que só respirava bem num centro de tortura, e que matava tanto quanto Guevara, — porque era um ditador de direita. A única diferença entre ambos, afora o espectro político, estava no cheiro: Pinochet tresandava a lobo carniceiro, enquanto Guevara habitualmente cheirava a enxofre. Ora, o diabo não cultiva a miserável ambição de estar apenas de um lado: ele acumula todas as posições possíveis e, entre elas, muitas de direita e de esquerda. A diferença, porém, do homem de ideias, ele pensa e age como ideólogo dos grandes inquisidores deste mundo, ora para manter uma ordem insuportável, ora para fomentar sangrentas revoluções. Sabendo distribuir com largueza os piores males, não é por acaso que seu nome é legião...

E é como legião que ele imprime uma cerrada disciplina a todas as instituições, acorrentando-as aos seus conhecidos mantenedores. Na negação a tudo que seja dotado de aura existencial, e na afirmação daquilo que é mistificador e dogmático, a presença de tal legião ocupa todos os âmbitos da realidade, de preferência os ligados à formação pedagógica dos homens. Daí que a coerência termine num insanável mal quando nem alivia nem cicatriza as feridas da existência, antes as aumenta ou as faz apodrecer. E como a existência jamais poderia apresentar a coerência das palavras de ordem mas, pelo contrário, costuma desbaratar as falsas ordenações, ela sempre haverá de surpreender...

Data da Publicação: 
13 Julho, 2016

Comentários

Comentar

Plain text

  • Nenhuma tag HTML permitida.
  • Endereços de sites e e-mails serão transformados em links automaticamente.
  • Quebras de linhas e parágrafos são gerados automaticamente.