A nobre ignorância

Só mesmo quem percebe o poder da ignorância se acha em condições de desvencilhar-se dela. Aqueles, ao contrário, que não dão sequer por sua presença, como conseguirão mensurar seu tamanho na própria existência? Não nos esqueçamos de que há, pelo menos, dois tipos de ignorância: a que costuma aprisionar indivíduos e grupos em redes de preconceitos e convenções, e a que clama por ser sacudida, em todos os seus liames, até romper as barreiras de trevas de tudo aquilo que se ignora, e nos faz lembrar a douta ignorância que, na visão do cardeal e pensador renascentista Nicolau de Cusa, não deixaria de rivalizar com a verdadeira sabedoria. Pois é um tipo de ignorância que cresce, em vez de diminuir, na exata medida em que essa sabedoria vai se revelando a cada um de nós; quando a vontade de saber quase se confunde com a vastidão daquilo que se ignora e, portanto, não para de interrogar.

Diferente, bem diferente, é a ignorância assumida como lei, para a qual se constitui em ameaça tudo que a faça fugir dos trilhos habituais; para ela ignorar será com certeza melhor que saber, não pela beleza que supomos existir naquilo que se ignora, mas pelo perigo, a tantos representado, pelo que ainda não sabemos. Porquanto o que ainda não sabemos é, muitas vezes, uma poderosa arma contra qualquer forma de mudança, sobretudo por colocar em questão tudo o que um dia julgamos superior em nossa equivocada visão de verdade ou de beleza num tempo e num espaço ora de todo irreconhecíveis.

Bastante diferenciada é a ignorância que nunca se satisfaz consigo mesma e, assim, não cessa de buscar o seu oposto, ainda que não possa, em nenhum momento, identificar-se plenamente com determinada etapa no caminho da sabedoria. Uma ignorância que não se ignora, por jamais contentar-se com seus limitados horizontes, termina por se constituir na face ignorada daquilo que, de maneira nem sempre clara, concebemos por sabedoria. Não é, por isso, de se estranhar que a loucura nem sempre seja sinônimo de desrazão, mas antes o espelho de uma trágica impossibilidade: a de não ser fácil distinguir até que ponto alcançamos a salvação ou a perda por meio do conhecimento, diante das mais contraditórias exigências do Ser. 

Data da Publicação: 
30 Abril, 2016

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