PERMANÊNCIA DO PÁSSARO

- I -

Como a penugem dos pássaros
é o seu destino tão leve:
para vossa retina ou lente
unilateral e breve.

Pois nessa fragilidade
que nas coisas se observa,
há algo de inalterável
que além delas se conserva.

É esse algo tão frágil
como a aérea tessitura
não do sonho: do real
que o sonho nos prefigura.

É esse algo tão frágil
como o anseio projetado
desses castelos que amamos
mesmo após de desabados.

Desses castelos mais vivos
para além da própria queda,
porque inscritos no eterno
como os pássaros mais breves.

Pelo muito que viveram
na nossa imaginação,
nossos pássaros - castelos
por acaso morrerão?

Viverão no projetado
como dantes no aparente:
viverão ainda mais frágeis
embora mais permanentes.

Porque o frágil de que eu falo
é o oposto de passageiro:
é o frágil libertado,
não o frágil prisioneiro.

É o frágil das contexturas
mais densas de eternidade:
ainda que não espessas
na sua fragilidade.

Que as coisas sem segurança
buscam sempre estar seguras: 
daí se tornarem espessas
como certas armaduras.

Daí se tornarem espessas
somente de contextura,
e apodrecerem por dentro
como tudo que não dura.

Daí não murar o mundo
quem como os deuses espera:
pois o eterno não busca
proteger-se, porque é eterno. - II -

Quero a linguagem secreta
que se constrói de silêncio
a projetar sua sombra
nos umbrais desconhecidos.

E aquele que se alimenta
somente do conhecido,
jamais conhece a vertigem
que se chama descoberta.

A projeção instantânea
de uma face sem moldura:
que pode ser o mistério
ao redor das criaturas.

Que pode ser a presença
que não fica em parte alguma:
mas uma vez vislumbrada
nos matará de ternura.

Pois o cerco das palavras
não pode conter a espera
que não se detém no espaço
e o próprio tempo libera.

MARILENDA

- III -

Assim, também, o mundo pouco importa
a quem vem do país de Marilenda,
após deixar no céu a lua morta
que Aragônia vestiu de pura lenda.

O verdor dos seus olhos ainda acorda
loucas aragens e imprevistas sendas
de puro amor, que as nossas almas borda
de sonhos mais finíssimos que as rendas

marinhas ou lunares em suas mãos
esquivas e seu corpo aventureiro
que se dava aos poetas, seus irmãos,

como quem dava o verde de oferenda. 
O corpo de Aragônia era o roteiro
que vai dar no país de Marilenda.

- IV -

Aragônia, a princesa, nos umbrais
de uma tarde florida de açucenas
mandou-nos sua imagem e as suas penas
qual se pássaro fosse, e nunca mais

houvesse de vestir a antiga renda
de seu corpo de nuvem desmaiada.
E apenas, como ausente, fosse a amada
lembrança do país de Marilenda,

ao qual voltou, serena e branca amiga,
sem que amadurecesse a cor da espera
num mundo que de amar nos desobriga.

Daí porque Aragônia é sempre aragem
soprando ao coração da primavera
qualquer coisa sem voz e sem mensagem.

- V -

Ao tempo em que vermelhas caravelas
transitavam serenas no teu sono
voltaste, e novamente foste dono
das paisagens marinhas e daquelas

tão sonhadas colinas amarelas,
que te fizeram delirar no outono,
pastando ovelhas brancas de abandono
na parede bordada de aquarelas.

Dos montes convocados pela flauta
de quando eras infante, resta o verde
colorindo, indeciso, a tua sede

que póstuma te fez pastor e nauta,
delineando nos lábios esquecidos
a cor que não tiveste em teus vestidos.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Proclamação do Verde

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