Progressistas & conservadores

Não nos sentimos à vontade sob as etiquetas de progressistas ou conservadores, utilizadas não só pelos ideólogos de diferentes matizes, mas também por parte de setores da Igreja. Como, por um lado, compreender porque a ideia de progresso, oriunda sobretudo do positivismo, viesse a adquirir, de maneira ambígua, o estatuto de universalidade? E, por outro lado, como reduzir toda a tradição a restos embalsamados de algo que se acabou, numa negação daquela herança que ainda se mantém viva? Parece-nos deveras melancólico que venha alguém se conformar com uma visão do mundo estereotipada sobre duas faces - a do ruidoso progresso e a da tradição empalhada - quando nenhuma delas em particular daria conta da totalidade que supostamente representa.

Por isso não há necessidade em se sustentar uma posição antes de enfrentar os dados de um problema. Pois qualquer problema, seja ele ético, estético, político ou religioso, deveria ser enfrentado a partir de si mesmo e não de um prévio olhar ideológico. Aqueles, entretanto, que costumam se mirar ora na tradição, ora no progresso, não conseguem entender sequer o presente em que se acham inseridos: um presente que, sem ser fixo, se situa dinamicamente entre o que se foi e o que ainda está por nascer. Como nos concentrarmos apenas no tempo vivido, e embalsamarmos o corpo vivo da tradição ou, em sentido contrário, voltarmos as costas ao passado, com tudo o que dele em nós permanece, para incensar as imagens mais tortuosas do futuro? Quais as maiores diferenças, por exemplo, entre os que conservam exclusivamente múmias - e não as relíquias que nos ficaram do passado - e os que mantêm o rótulo de progressistas?

Por todas essas razões seria difícil concebermos uma figura como Jesus de Nazaré, quer como conservador, quer como progressista, já que, em seu tempo, ele se opôs tanto à direita dos fariseus e saduceus, quanto à esquerda dos zelotas. Dessa forma o signo da Cruz se mostra simultaneamente horizontal e vertical, em vez de reduzir-se às posições fixas da direita e da esquerda...

Publicado em 28 de maio de 2016 no Jornal do Commercio

Data da Publicação: 
28 Maio, 2016

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