Nas águas do divino

Para Santa Catarina de Sena suas amizades não passavam de espelhos do amor divino, e, segundo suas próprias palavras, "como reflexos na água". Para ela "a alma que não vê Deus nas criaturas e a si mesma senão em Deus é como aquela que mergulha e vai nadando embaixo d"água. Não vê senão o que as águas contêm". Assim cada face amiga deixa seu reflexo nas águas do divino em memória de sua passagem. Pois ver sobre as águas, ou através delas, a presença do divino é prolongar, no plano sobrenatural, o velho eco do fragmento de Tales de Mileto ainda a soar em nossos ouvidos: "Tudo está cheio de deuses". Sem o divino a permear todas as coisas, não poderíamos compreender o dinamismo que sempre nos pareceu animá-las com o sentido da transcendência.

Sob vários aspectos a oração é uma forma superior de resposta à sede do divino que habita em todas as coisas que, não raras vezes, disfarçadas em sua mudez, parecem recorrer agoniadamente ao apelo da nossa voz. A tarefa de nomear as coisas que, segundo o texto bíblico do Gênesis, foi concedida ao homem, não deixa de apresentar uma misteriosa similaridade com a oração, a qual, por sua vez, se mostra inseparável da necessidade constante de ação de cada um de nós. Nenhuma arte se nega a desempenhar, de modo velado ou transparente, o papel reservado a essa fundamental ação não só nomeadora, mas criadora. Se os nossos atos se tornam indissociáveis da alma que os anima, como os rumos por acaso escolhidos poderão se desvencilhar dos passos que ela lhes imprimiu?

Como a face dos nossos amigos não cessa de espalhar os seus reflexos nas águas do tempo e no espelho da eternidade, também jamais conseguiremos escamotear o vínculo inevitável entre o que aspiramos e o que vivemos. Daí porque percebendo com justeza esse vínculo entre as nossas aspirações e os nossos atos, outro santo, Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, nos deixou esta lição inesquecível: "Devemos rezar como se tudo dependesse de Deus, e agir como se tudo dependesse de nós". E toda oração aspira, com ou sem inquietude, se converter, ainda que de maneira invisível, em ações que sejam correspondentes com ela.

 

Publicado no Jornal do Commercio

Data da Publicação: 
19 Abril, 2016

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