A voz do coliseu

A cultura de massa, em suas mais variadas manifestações, sempre me trouxe à memória dois dos momentos mais patéticos da história da condição humana: a proposta feita por Pilatos da escolha entre Jesus e Barrabás - obviamente com a vitória desse último - e a luta dos gladiadores no Coliseu romano como um dos ingredientes da receita pão e circo cunhada pelos césares para captar os aplausos da plebe. Por essa razão jamais consegui identificar a criação grega da democracia, tão decisiva para o desenvolvimento das nossas ideias políticas, com o caráter geralmente circense, quando não monstruoso, das multidões. Sob esse aspecto não foi por acaso que, para todos os tempos, Jesus nomeasse o Diabo de legião.

Daí minha dificuldade em compreender as democracias de massa que, ao contrário das democracias sociais, concorrem antes para a eclosão da barbárie que para elevar o nível mental, cultural e social dos povos. O valor absoluto dado ao sufrágio universal não costuma levar em conta que grandes instituições se criaram e se desenvolveram à margem de sua influência, e a mais notável delas, a Igreja, se traz na base o apelo, por assim dizer democrático, da fraternidade entre seus membros, é autocrática e até absolutista em sua cúpula, tanto sob o aspecto doutrinário e dogmático, quanto nos aparatos e práticas de sua organização.

Talvez se deva justamente à sua organização religiosa, simbolizada na figura do papa, a unidade da Igreja, após dois milênios, diversamente do que veio a acontecer com os movimentos religiosos surgidos com a Reforma.

De igual modo se constatamos a constância de fortes criações culturais inspiradas pelo povo - assim como nunca deixou de ocorrer no seio da Eclesia - o mesmo não pode ser dito do gosto alterado das massas que, em lugar de se unir às festas, cantos e contos imemoriais, se acha habitualmente ligado, como no antigo Coliseu, a chacinas, execuções, manifestações orgiásticas e outros espetáculos grotescos ou impermeáveis a qualquer elevação espiritual.

Somente os ideólogos, que dependem de interesseiras plataformas culturais, e os políticos, em suas campanhas milionárias, valorizam tanto o sufrágio universal, de uma vez que se alimentam e vivem de sua exploração. Por tudo isso não faltou razão até hoje a Nietzsche quando escreveu, em Assim falava Zaratustra, que "no princípio o Verbo se fez carne, depois virou populaça".

E bem sabemos, por larga experiência, que a populaça não tem cabeça: só rabo... E uma voz que cresce à medida que se ampliam as sombras do Coliseu.

Data da Publicação: 
20 Fevereiro, 2016

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