Falar sozinho

Você olha para um lado e para outro, procura se fazer entendido por um provável interlocutor, e de repente tudo aquilo que você pensa e sente não passa de algo extemporâneo para os padrões da realidade que é obrigado a viver. Como no trato habitual com muitos dos contemporâneos, conseguir ocultar a angustiante sensação de pertencer a uma esfera inteiramente oposta àquela a que eles pertencem? Entretanto, diferente da maioria dos portadores de senso comum, que têm com quem partilhar os mesmos preconceitos e prevenções, os que resolveram trilhar seus próprios caminhos sempre hão de, no mínimo, se enredar em seus desvios antes de assimilados por seus tão difíceis companheiros.

Pode acontecer pior coisa para um mortal do que terminar falando sozinho, já que poucos acham tempo para captar o sentido do que diz, por se tornar impossível à sua compreensão? É terrível depender de certas injunções impermeáveis a qualquer escolha e preferência, que se impõem por força dos percalços do tempo e das modas e vogas sociológicas contrárias a qualquer medida tanto ética quanto estética reclamada pela natureza própria da cultura. Quem, por acaso, deixa de participar, em maior ou menor grau, da tragédia e da comédia implícitas e explícitas em toda existência? Em que consiste o existir, em última análise, senão num confronto com a realidade, confronto que não terá fim, nem mesmo para os que, confiando na metempsicose, acreditam poder aperfeiçoar, por ações superiores em outras vidas, os giros da roda da existência? Ora, se essa roda não para de girar, como evitar contrair novos carmas, quando somos, sem trégua, convocados a responder às diferentes vozes históricas dos tempos?

Se você não foi consultado para chegar à existência, tampouco dispõe do direito de esperar ser correspondido nas relações com seus semelhantes, e menos ainda da capacidade de discernir seu real papel como figurante no espetáculo do mundo. Talvez o conto de Andersen sobre o Patinho feio, - que escondia o destino de um elegante mas desconhecido cisne, até de si mesmo, - seja a imagem simbólica que melhor se presta a explicar o drama de quem se viu condenado, sem explicação, a falar sozinho. Mais ou menos como os gatos ou os cães que habitam conosco porém possuem outra linguagem.

 

Publicado no Jornal do Commercio

Data da Publicação: 
5 Fevereiro, 2016

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