A diminuição do mundo

Após quase uma década de dedicação à produção ensaística, Ângelo Monteiro reaparece como uma das vozes poéticas mais expressivas da literatura brasileira. Dono de trajetória marcada pelo apuro formal, apresenta o livro Como virar as páginas da solidão (Confraria do Vento) perto de completar

50 anos do aparecimento da Geração 65, da qual é um dos grandes expoentes. Ex-professor de filosofia e estética na UFPE, Ângelo possui uma visão bem particular sobre nossa cultura e conversou com a equipe do Café Colombo, dentre outras coisas, sobre as suas convicções estéticas e as estapas da própria obra.

Café Colombo – Você foi um dos primeiros entrevistados do nosso programa de rádio, em 2002. Após mais de uma década, você enxerga evolução ou decadência, o que houve com a cultura brasileira nesse período?

Ângelo Monteiro – Um enrijecimento do mau gosto e uma promessa muito longínqua de que nenhum povo agüentará por muito tempo semelhante barbárie. Muitas vezes, diante da cultura, eu vejo o Brasil como uma antecâmara do inferno, e me lembro da frase de Dante: “abandonai toda esperança, vós que entrais”. Se você admitisse a reencarnação, teria que admitir que, no Brasil, o Padre Vieira viraria o Faustão, como se pra descer aqui você tivesse de baixar o nível da cultura. Uma coisa curiosa é que quando se morre um escritor é o mesmo que nada por aqui. Pode ser um grande premio Nobel, mas você vai na geladeira, tira um copo d’água e acabou a notícia. O que me apavora é o recrudescimento de um marxismo cultural, sobretudo nas  universidades, mas iniciando ainda nas escolas, que conseguiu eliminar as ligações entre a cultura brasileira e a cultura latina, com o objetivo de nivelar as diferenças e alterar tudo que foi aceito até então. Com isso, evidentemente, se destroça qualquer idéia de valor, se retira a diferença entre Paulo Coelho e Machado de Assis. Na minha infância estudávamos com o livro Crestomatia, de Radagasio Taborda, conhecíamos literatura portuguesa e espanhol fazia parte do currículo básico. Quando eu tinha 11 anos e fiz o teste de admissão ao ginásio precisava conhecer tanto Castro Alves quanto Padre Vieira, tanto Camilo Castelo Branco quanto Camões. Depois as escolas começaram a substituir poemas por letras de músicas, uma obra dos irmãos Campos. Mas veja bem: não é por acaso que um compositor genial como Wagner fazia questão de escrever o seu libreto, porque sabia que ali o verso estava em função da música, sem autonomia própria. As exceções são raríssimas, como Construção, de Chico Buarque, em que há letra de música e poema. Só que o processo agravou-se: hoje não se fala mais de Caetano Veloso, mas de Gabriel, O Pensador. E a tendência é piorar. Minha afilhada participou de um vestibular para uma universidade federal e caiu uma questão que comparava Gregório de Matos a Eguinha Pocotó. Meu Deus! Não há nivelamento. Nós conseguimos isso para o contentamento máximo da elite brasileira. É curioso que num país em que letra de música está no lugar de poesia é onde há mais poetas do mundo. Você não tem leitores, você só tem poetas. E se todo mundo é poeta, ninguém nem nota que a poesia existe. Deve ser isso, me parece isso.

A respeito desse nivelamento, o seu poema Esvaziamento tem os versos “Quando as coisas, por fim, se tornam neutras / nos esvaziamos mais por dentro que por fora”. Como esse processo se reflete no indivíduo?

Em seu apagamento. O que o marxismo fez com a cultura é mais ou menos o que a democracia de massas fez com a democracia reduzida ao sufrágio universal. Quer dizer, eu defendo uma democracia orgânica, que endosse valores fundamentais do espírito humano, e não que seja uma ditadura da maioria. Me diga: há alguma coisa marxista fundamental para o espírito humano? Gilberto Freyre disse muito bem em Vida, Forma e Cor: o marxismo representa para as ciências sociais o que representa o cubismo para a pintura; o cubismo morreu, a pintura continua. Ou seja, naquele momento foi importante, mas pensar em revolução hoje é totalmente contra o espírito da cultura, só sendo débil mental ou sanguinário.

Apesar dessa visão pessimista, nesses últimos treze anos também houve o resgate de autores importantes, como Otto Maria Carpeaux e José Guilherme Merquior, e a lista de bestsellers políticos inclui autores com uma perspectiva bem diferente do marxismo. Não seria um sinal de que há mais diversidade no ambiente cultural?

Essa contradição é admirável, porque há uma geração nova extremamente inteligente vendo que alguma coisa está errada. O Brasil não morreu, o Brasil está começando. A nossa geração, de 1960, é marcada pela segunda guerra mundial, o grande problema ideológico, a guerra fria. A geração mais nova não teve isso, ficou mais livre. Só que no meio dessa marca houve um desvio que tirou a liberdade de cátedra nas universidades, a liberdade de pensar diferente. Você tem que aceitar aquele esquemão dos desconstrutores, tipo Michel Foucault, Derridá e Deleuze, ou vai entrar em confronto com o domínio mental da universidade e não deixam você fazer um mestrado ou um doutorado... Culturalmente você vive em guetos, é como se fizesse uma cultura para si mesmo. Vira quase um voltar-se para si porque o conjunto está fora da jogada.

Com isso encontramos o tema central do seu livro Como virar as páginas da solidão, que me parece ser a valorização das experiências individuais e do encontro, já que “as paisagens mais belas empobrecem se nos falta uma presença humana à altura para partilhá-la”. Creio que essa preocupação também se evidencia ao dizer que “O diálogo nunca deixou de ser uma forma de resistência contra as múltiplas e variadas tiranias da opinião”. Por que estamos falando cada vez mais a sós? Eu tenho uma sensação de que o apego a  ideologias tem substituído o debate pelo combate e feito as pessoas se reduzirem a esse papel de caixas de ressonância das idéias. O que o senhor acha?

Eu concordo com você. Essa luta ideológica crava uma solidão bem maior, propicia menos elementos para o diálogo, porque são visões ideológicas que se  contrariam, que se confrontam, e olhando direitinho, tanto uma quanto outra são visões do passado. Tanto a direita quanto a esquerda estão mantendo a  repercussão do velho jogo da guerra fria que já perdeu sentido. O interessante é que na hora das bandeiras sociais essa paixão desaparece: não há  preocupação com o social, a preocupação é com quem vai ganhar esse projeto. Ninguém está preocupado com a situação da população ou da justiça  social. Isso crava, a solidão fica bem maior. Por que isso acontece é uma pergunta que eu tenho dificuldades de responder. Eu arriscaria dizer que está faltando um lastro divino que existia, por exemplo, na cultura grega ou na cultura pagã. Na medida em que você faz de um processo de sabotagem cultural  o princípio da cultura, não há cultura que sobreviva.

Este ano completam-se 50 anos de 1965, ano que ficou marcado pelo aparecimento de uma geração  vasta de escritores pernambucanos na qual você se inclui. Qual a sua visão geral sobre a geração de 65?

Olhe, a geração 65 é uma forma muito particular  de Pernambuco se marcar historicamente e se posicionar face à realidade, mas trata-se de uma geração de 1960, marcada no mundo todo pela guerra e que foi continuadora do legado das gerações anteriores. Isso se caracterizou exatamente pela assimilação do que houve de importante nas diversas fases  históricas da literatura do Brasil. Tivemos essa sorte de contar com poetas como Jorge de Lima, Murilo Mendes, Joaquim Cardozo e João Cabral. Então se você pegar uma antologia da geração de 60 em Pernambuco (eu estou lá, me colocaram até pra concluir  o volume e foi a primeira vez em que eu virei uma chave de ouro, para concluir um livro), mas a rigor é a mesma geração que está no Piauí, no Maranhão e em toda parte. O problema é que o Brasil é um continente e nós não sabemos o que se faz no  Maranhão, na Paraíba, e quem vai dizer o que é bom e ditar o padrão é o Sul.

Numa entrevista ao Café Colombo em 2008, por ocasião do lançamento do livro Todas as coisas têm língua, o senhor disse que acabara de lançar "um ataúde de luxo de uma obra em processo de finalização", mas depois já lançou outros dois livros de poemas. Fazendo referência aos seus versos de Olhos da Vigília, 'não somos os mesmos / em diferente estação', quantas estações há na obra de Ângelo Monteiro?

Quantas estações? Eu  diria que o divisor de águas é O Inquisidor. Eu só posso dizer isso, o resto eu não sei. Eu não sei sequer qual o rumo que está tomando a minha vida, quem dirá a minha poesia ou a minha expressão poética. O que aconteceu foi uma surpresa para mim mesmo.  Quando eu escrevi essa primeira parte de Como virar as páginas da solidão, que eu chamo de Sermões ao tempo, veio a segunda. E quando eu terminei veio uma porção de coisas. Assim como a poesia tinha me abandonado, ela voltou, virando as páginas da  solidão. Veio um enxame de poemas, e agora é rara a semana em que não escrevo quatro ou cinco. Eu pensava que tinha acabado, mas como é um vicio, como é uma tara, é muito difícil de consertar... Então Como virar as páginas da solidão pode ser o início  de uma nova estação? Pode até ser, e deve ser a estação terminal. Não deixa de ser, porque a gente está sempre morrendo para o passado. A cada obra dá-se a morte do passado e o renascimento de novos presentes, sem negar o passado. Normalmente o  intervalo entre um livro e outro demorava, mas agora já veio o Imagens em fuga, pela Bagaço. Talvez porque eu esteja ganhando anos, o fato é que eu estou escrevendo muito mais do que escrevia no passado. Talvez seja a forma de ressaltar que a solidão ampliou-se e nada melhor do que o mal feito, do que a desgraça, do que a miséria, para estimular a criação. É uma forma de você entrar em conflito com aquilo que é negativo. Acho que a arte é renascedora, tem essa função de fazer você renascer.

E como foi   processo de construção de Como virar as páginas da solidão?

É difícil dizer. Foi como se eu resolvesse tomar o tempo como interlocutor e, diante dele, começasse a me surgir não só momentos que eu já vivi do passado, mas momentos que eu estava vivendo naquele momento. Isso fez com que eu imaginasse um tipo de sermão que não fosse de um sacerdote para os fiéis, mas de um poeta que, enquanto sacerdote, resolvesse conjurar o tempo e suas circunstâncias. Eu sempre gostei de prosa poética (um exemplo disso é O Ignorado), e de certo modo a retomei. A prosa não deixa de ser uma forma de poetização, e com uma vasta tradição no Brasil, com Raul Pompeia, Cruz e Souza, e também na poesia contemporânea inglesa, francesa e alemã. Dessa maneira, eu apenas retomei uma coisa sobre a qual já havia uma tradição, mesmo porque eu pensava que havia abandonado a poesia – ou que a poesia havia me abandonado –, e nesse caso ela veio através da prosa e depois voltou pra forma anterior.

Podemos dizer que houve uma espécie de transição entre a escrita do ensaio, a  prosa poética e a poesia?

É uma boa colocação. É como se fosse um ensaio diferenciado, como se a linguagem do ensaio se transformasse em poema.

Em relação a essa junção entre ensaio e poesia, o senhor já disse que não existe uma junção entre a literatura e a filosofia, apesar delas terem em comum a destinação ao ser, porque a filosofia deve refletir o ser enquanto a literatura deve cantá-lo. Existe  alguma diferença entre o Ângelo que reflete e o Ângelo que canta?

Assim como a reflexão pode provocar o canto, o canto pode provocar a reflexão. E esse livro mostra isso. Só que a filosofia e a poesia são “duas mulheres ao mesmo tempo, em perpétuo antagonismo e em contínua fascinação”, porque a linguagem da filosofia é  basicamente hermenêutica, com a função de explicitar a realidade do ser, enquanto a outra tem por objetivo a celebração do ser. Mas a verdadeira poesia tem algo de filosófico ao cantar essa realidade. Um exemplo disso é Deus, o poema conhecidíssimo de Casimiro de Abreu. Eu tinha oito anos quando conheci esse poema e não há provas de Deus, de Thomas de Aquino, Santo Agostinho ou seja quem for, melhor que esse poema. É uma forma já não racional, mas emocional, de colocar o problema. A arte tem isso. Ela expressa a coisa de forma plástica, de forma visual, de forma musical, de forma estética, o que a outra explicita através de categorias. A poesia usa símbolos, metáforas; e a filosofia, conceitos, reflexões. Há uma união entre ambas, só que uma união conflituosa, porque os processos são diferentes.

Ao falar sobre a relação entre literatura e filosofia, o senhor acabou falando de um terceiro elemento que junto aos outros dois parece se colocar como um tripé na sua obra: a religiosidade.

Eu diria o sagrado. Uma frase de Tales de Mileto me marca profundamente quando ele diz “tudo está cheio de deuses”. Significa que toda realidade é sagrada. Essa visão veio da minha vivência. Eu sou de uma época em que a vida era transmitida, e também a história, através dos sinos. Pelos sinos se ouvia o meio-dia, a hora da virgem Maria, etc. O sino regulava o horário dos homens. Mas se você olhar a própria palavra teoria, de theorein, significa a visão do divino nas coisas. A teoria não é uma interpretação fria da realidade, não é qualquer visão das coisas, mas uma visão do divino das coisas. Aí se fala teoria e práxis, o tempo todo, sem reconhecer o elemento sagrado na própria idéia de teoria. Como o conceito de verdade que se deriva de aleteia também, que quer dizer o desvelamento do sagrado, o revelamento do divino nas coisas.

A importância dessa distinção entre religiosidade e sagrado seria que o senhor não se restringe a influências de uma doutrina em específico?

Exatamente. Eu nunca me esqueci de uma cena que aconteceu numa noite, indo a uma exposição de pintura. Eu já tenho muita identificação com o cachorro, acho um animal extraordinário, e o meu faro não tem igual. Nesta noite fui atraído por uma lata de lixo, e lá estava o Bhagavad Gita e as obras de Corneilli. Não há religião que não tenha os seus livros sagrados, o que vem comprovar que a ligação entre a arte e o sagrado é antiguíssima.

O livro também faz muitas referências a noção de um Édem perdido, de uma falta que angustia ou de um sonho que revela, além de menções diretas ao inconsciente, como é o caso do texto A dor do passado, que diz: “o mesmo inconsciente que é gerador dos nossos sonhos é também causador dos nossos desastres”. Todos esses elementos dialogam muito com o campo da psicanálise. Como é a sua visão a respeito?

A única psicanálise que eu admiro profundamente é a de Jung. Ele não tinha a perfeição na escrita de Freud, mas era extremamente culto e tinha uma capacidade muito mais sutil de perceber determinadas coisas, inclusive a concepção de arte. Eu me lembro que papai assinava uma revista de inspiração freudiana, mas Jung não vê a arte como Freud, prisioneira da biografia interior do artista. A arte não é necessariamente resultado de uma vivência autobiográfica neurótica, seja qual for. Eu li várias obras de Jung e também me impressionei muito com a preocupação que ele tinha com o religioso, como o livro em que ele estuda sobre o milagre da missa. O inconsciente está aí, mas cada um receber de acordo com cada individualidade cultural. Isso que eu acho importante em Jung.

Entrevista à Revista Café Colombo

Data da Publicação: 
6 Setembro, 2015

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