Apelo ao bom ladrão

Seria uma enorme sorte para o Brasil se contasse com a colaboração de um padroeiro especial, o Bom Ladrão, já que o roubo vem se constituindo no marco maior da nossa tradição política, e o Mau Ladrão parece dominar todos os poderes do País, ao passo que os seguidores do primeiro se encontram geralmente sujeitos a correntes e cadeias, não conhecendo quaisquer direitos ou consolações. Enquanto isso, os piores ladrões açambarcam dos mais pobres até seus precários meios de subsistência, sem falar dos impostos diretos ou indiretos arrancados da classe média pelas artimanhas da máquina pública.

Roubar dos grandes para dividir com os pequenos nunca fez parte do projeto dos nossos Robin Hoods às avessas, que somente repartem o butim com os elementos da própria laia. E como extorquir, sobretudo, os mais carentes e despossuídos se tornou sua prática habitual, não deixaremos de fazer a seguinte pergunta: Por que não passam a roubar entre si, se tão bem conhecem a arte de furtar, em vez de espoliar os que não têm onde cair mortos? O Mau Ladrão, entre nós, virou presença tão dominadora que não deixa margem para os acenos, ainda que distantes, do Bom Ladrão. Como estava coberto de razão o Padre António Vieira nas palavras do sermão pregado em Lisboa no ano 1655: "O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres". E como em nosso meio o roubo costuma engrandecer os que a ele se dedicam com exclusividade, não nos custa lembrar outra passagem do Sermão do Bom Ladrão: "Mas que se iria senão só víssemos ladrões conservados nos lugares, onde roubam, senão depois de roubarem promovidos a outros maiores?". Pergunta que, quase quatro séculos depois, se mantém atual nos exemplos vivos que enxameiam em nossos olhos a partir do sólido prestígio alcançado pela roubalheira.

É uma pena que, mesmo sem herdarmos as façanhas guerreiras de um Alexandre, vemos os máximos representantes dessa roubalheira se converterem, de uma hora para outra, em indiscutíveis espelhos da alma nacional. Que irão fazer, então, os que se veem, no lado oposto, pilhados pelos dissipadores do erário público, senão esperar que, por um inesperado milagre, surja diante deles um padroeiro como o Bom Ladrão?

Publicado no Jornal do Commercio em 28/10/2015

Data da Publicação: 
28 Outubro, 2015

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