SOLIDÃO TIGRE

Carrego a solidão
como um tigre no peito:
um tigre já sem garras
acesas sobre a vida.

Mas que mesmo sem garras
tem arestas de sombra:
com seus gumes varando/a
carne de nostalgia.

E em vez dos saltos rubros
sob as nuvens de um dia:
o destino em seu pelo
fazendo acrobacia.

E do passado - fera
carrega em seu silêncio:
o seu lombo de tédio
estirado no tempo.

Polvo de luz meu poema
a explodir em canção
ou colapso violento:
violando a solidão.

E de mim se desprende
seu espasmo tão longo,
sua angústia, seu sêmen:
seu hálito dos anjos.

De modo que se um tigre
rompe a crosta do poema:
é toda a minha vida
acesa sobre a mão.

Meu poema, tigre manso
que pulsa entre açucenas:
com suas patas lentas
planando a solidão.

Autor: 
Ângelo Monteiro
Livro: 
Proclamação do Verde

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