Sermão da Espera

Sede violentos, se for santa a vossa guerra, mas sede, sobretudo, pacíficos e mansos, pois não pode haver maior violência do que esta. Pois a verdadeira paz representa um combate contra os vossos demônios e uma luta leal com Deus e os seus anjos para sucumbirdes, finalmente, sob o Seu Poder e o da falange angélica dos seus defensores. Deus é o grande Touro, e seja a vossa violência a de toureadores de Deus: ela poderá tocar o seu Divino Coração, enternecido por vossa valentia em Seu combate, ainda que sejais sempre derrotados numa luta com ele, para que a vossa glória se identifique com a sua Glória.

Sede arrogantes para com os arrogantes, para que não estragueis a vossa humildade, submetendo-a ao ridículo do mundo, mas sede, sobretudo, humildes, pois não há fórmula mais poderosa de aniquilamento perante esse mesmo mundo.

Sede cruéis se tiverdes de ser mesquinhos até mesmo sob as aparências do bem. Mas sede, além de tudo, generosos: não há maior sinal do poderio de um caráter.

Sede odiosos toda vez que o amor vos parecer antes uma debilidade que uma grandeza, mas, antes de tudo, amai, porque todo amor, por menor que seja, é mais poderoso que o ódio.

Diante dos profanos sede hipócritas, ainda que não sejais nunca profanos, escondendo em tudo o vosso eu quando os profanos todos trazem suas portas escancaradas, até mesmo aquelas que deveriam ser menos visíveis … Mas sede, sobretudo, francos, quando pressentirdes que há um puro diante de vós.

Sede vis, se não puderdes ser santos, a terdes de fazer até o Bem por mesquinhez. Mas sede, sobretudo, bons, pois não pode haver maior maldade para os maus. E podeis, até mesmo, ser bondosos, se estiverdes, realmente, em procura do Verdadeiro Bem.

Em tudo usai a medida de vossa violência, se não quiserdes resistir à Grande Voz.

Sede impacientes, se a vossa paciência não puder fazer nada para atingir o vosso grande Fim. Mas sede, sobretudo, pacientes, utilizando na vossa paciência o carinho e o cuidado com que dois corpos se comungam, quando enlaçados no Divino Jogo, para atingir o mesmo êxtase.

Sede desesperados, se a vossa espera não refletir mais do que um cansaço, se ela for sem brilho e sem paixão, mas sede, sobretudo, esperançosos, ainda que esta esperança vos custe a vida. Sede, no entanto, além de esperançosos — expectantes, em permanente tensão de espera, ainda quando nada haja que esperar, mesmo depois de esgotadas todas as tentativas de espera, sendo preciso unirdes ao mesmo tempo a esperança e o desespero, numa única síntese expectante. Pois Deus, é, ao mesmo tempo, o Pai de toda a expectação, o Senhor da Espera, o Fogo Violentador e Purificador de toda a esperança.  Amém.

Autor: 
Ângelo Monteiro

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