Outras Vozes

Ângelo Monteiro, alagoano de nascimento, mas de há muito radicado no Estado de Pernambuco, mais precisamente na cidade do Recife, na qual pontifica como competente Professor de Estética e Filosofia da Arte, constitui-se num dos nomes mais importantes do atual cenário cultural brasileiro, sendo autor de livros instigantes, que nos ajudam a compreender a complexa e desafiadora realidade com a qual nos deparamos, cotidianamente, e na qual estamos, visceralmente, inseridos.
    Título como Arte ou Desastre; Escolha e Sobrevivência;  e Tratado da Lavação da Burra ou Introdução à Transcendência Brasileira, dentre outros tantos produzidos e ainda não enfeixados em livro, dão bem a medida do amplificado alcance das suas maduras e verticais reflexões sobre o ser do real e o real do ser.
    Examinado de perto, na pulsação profunda de suas pulsões vitais, flagram-se, no superior ensaísmo de Ângelo Monteiro de modo ostensivamente visíveis, dois vetores que se irmanam, completam e dialetizam, de maneira admiravelmente consorciada: o místico-religioso-espiritualista e o poético. O primeiro, eivado dos matizes da transcendência, postula uma visão holística das coisas, uma compreensão de que todas as realidades que nos cercam, conforme sinalizam os imortais versos de Baudelaire, fazem parte de uma ”vasta e tenebrosa unidade”. Advirta-se, contudo, que o veio místico que impregna o ensaísmo de Ângelo Monteiro nada tem de sectário, nem assina pacto de espécie alguma com cosmovisões dogmáticas, venham elas de onde vierem; antes, é libertário, acolhedor da palavra do outro, sem abrir mão de explicitar as suas convicções e exponenciar a própria voz.
    Avesso ao materialismo tacanho e reducionista, Ângelo Monteiro, na esteira do que propugna Mircea Eliade em seu clássico livro O Sagrado e o Profano pensa o real em seus abismos, epifanias e múltiplas modulações de sentido. Esse antidogmatimo monteiriano vê-se, por exemplo, no excelente ensaio consagrado ao monumental romance A Pedra do Reino, transliteratura urdida pelo sonho, loucura e genialidade de Ariano Suassuna.
    O outro vetor que baliza os ensaios de Ângelo Monteiro é a presença hegemônica da poesia, da qual Ângelo Monteiro se mostra um apaixonado incondicional, na medida em que confere à poesia a condição de um território luminoso que, partindo da palavra, mas ultrapassando-a, intenta desvelar o indesvelável mistério de um enigmático fenômeno chamado homem.
    Confessando-se, em algumas das suas intervenções públicas, viver em estado de prisão domiciliar, metáfora com a qual Ângelo Monteiro pontua a sua visceral convivência com os livros, sabe-se que nessa prisão o criador de Olhos da Vigília experimenta a ontológica liberdade que somente o indomável signo poético é capaz de conferir. Outras Vozes, título do mais recente livro de ensaios de Ângelo Monteiro, ratifica as multiplicadas qualidades da sua cristalina maneira de se enamorar da literatura, com especialidade, da poesia.
 Cartografando o ser/fazer poético gestado na geografia pernambucana, mas, de igual maneira atento ao que se passa noutras regiões do país em matéria de criação literária, Ângelo Monteiro atualiza, admiravelmente, a velha e atualíssima lição que o mestre Machado de Assis esculpiu em seu lapidar ensaio Instinto de Nacionalidade, segundo o qual “não tinham tudo os antigos, não têm tudo os modernos; com os haveres de uns e de outros é que se forma o pecúlio comum”. É pelo esforço generoso e competente do Professor-Ensaísta Ângelo Monteiro que ficamos face a face com uma plêiade de consumados estetas da palavra, que se consomem e consumam no fascinante, agônico e purificador fogo da poesia.

José Mário da Silva

Docente da UFCG

Matéria do Jornal da Paraíba

Autor: 
José Mário da Silva

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