Saudação a Ângelo Monteiro

Acabo de sair d'Os
Olhos da Vigília,
ainda com insônia e
lamentando a
"inteira vida sonhada/
sem se vivê-la um só dia",
sem tirar a vista 
"da passagem dos homens/
sobre a infinita areia/
entre a música das águas 
e o clamor da vida eterna".
O interessante, amigo, é 
que se trabalhar com a 
palavra é trabalhar a
própria dor,
"toda palavra é essência/
da nossa própria agonia".
Será que fazemos isso
porque continuamos
a soprar as brasas
"do amor que - além 
dos ossos - foi poesia?,"
e procuramos
chamar a atenção "dos
pássaros mais altos do
futuro"?
Não sei, amigo, apenas
desconfio que lá fora 
"fez-se treva no centro da
linguagem",
sabendo-se,embora, que 
"...só com a poesia / é
possível iludir e contrariar
a realidade".
E,para contrariá-la, é
preciso uma poesia de forte 
fibra e altíssima 
culminância,como a sua.

Carta do poeta Alberto da Cunha Melo

Autor: 
Alberto da Cunha Melo

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