O Inquisidor: A Redenção pelo Fogo

Esta a profecia que faz o Poeta Ângelo Monteiro aos irmãos de seu tempo. Está escrito, portanto, o poema do Juízo: um fogo unificante, ilimitado e eterno, transformará o mundo, purificando a terra, a paz trazendo aos homens, nas chamas que navega - o fogo apocalíptico que instaura a nova era.

Eis as armas da poesia, vencendo o sono das pedras. Apologia do sonho, alegoria da espera. A redenção concebida da chaga rubra e secreta. Em cada dúvida a chave que a vida humana liberta. E a cada cinza uma estrela , testemunhada na treva.

Do sacrifício que é luta o amor vai jorrar como um rio aureolado de cores, que se renova no leito, frutificando o deserto como o Cristo foi na Virgem: fruto, grão, verdade e guia da multidão controversa.

O Inquisidor vingará pelo fogo a sua terra, expulsando do templo os falsos estandartes, arrebentando a porta submersa. E a ele ofertaremos nosso cálice: intacto, dourado - pois velamos - entornando as asas mortas sobre o sangue, onde hão de renascer níveas, etéreas.

O Inquisidor mergulhará no abismo, enlaçando o absoluto nos destinos, superando a todo antagonismo, subjugando todos os demônios que no lodo segregam suas serpes, e elevando uma fé sobre a vergonha resistirá dançando a sua prece.

Um sinal interrogante, que é o próprio homem convulso, debruçado sobre o mundo que a sua angústia reflete; o fio argênteo da vida ameaçado no ponto da morte que permanece.

O Inquisidor: um Poeta violando com seu canto, sob um hermetismo aparente, a verdade do universo. Uma arte que é audácia, palavra, imagem, idéia. Muito além do vil brinquedo dos que seu nada projetam. Além da farsa daqueles que em ecos martelam seus versos. Pois não há maior poesia que a vida: luz e mistério.

O Inquisidor: uma ética.

"Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; absolvei, e sereis absolvidos". (Evangelho de São Lucas, cap. VI, v.37). "Pois tudo o fogo, aproximando-se, julgará". (Heráclito, frag. 66). "Deus é, ao mesmo tempo, o Pai de toda a expectação, o Senhor da Espera, o Fogo Violentador e Purificador de toda a esperança. Amém". (Ângelo Monteiro, O Inquisidor).

Diário de Pernambuco, agosto/1976.

Autor: 
Lucila Nogueira

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