Ângelo Monteiro e o Inquisidor

Por coincidência estava com o livro de Ângelo Monteiro às mãos na véspera da festa de Nossa Senhora do Carmo, quando juntei-o à oração da padroeira da cidade, que no fim diz: "Assisti-me durante a vida, consolai-me na morte com a vossa amável presença e apresentai-me à augustíssima Trindade com vosso filho e servo dedicado, para vos louvar e bendizer eternamente no paraíso. Amém".

O livro O Inquisidor é uma experiência inusitada quase no início da carreira, se assim podemos dizer, de um poeta amadurecido nas contingências terrestres. Embora não esteja na carreira eclesiástica, mantém a virtude de descobrir o sobrenatural em alguns labirintos profanos, não sendo como aquele bispo do romance "O Vermelho e o Negro, de Stendal, que na visita do rei a uma cidade francesa, como muitos diante dos poderosos, clama aos pés da estátua de São Clemente: "Não esqueçais nunca, jovens cristãos, que vistes um dos mais poderosos reis da terra ajoelhado diante dos servidores desse Deus todo poderoso e terrível. Esses fracos servidores, perseguidos, assassinados na terra, como vedes pela ferida de São Clemente, triunfam no céu. Não é verdade, jovens cristãos, que vos recordareis para sempre deste dia e detestareis os ímpios? Que sereis fiéis para sempre a esse Deus tão grande, tão terrível, mas tão bom?"

Lá um bispo real, verdadeiro, na mesma capela não acrescenta frase para que o próprio rei não chore, nem recebendo resposta de obediência a suas palavras:

- Recebo vossa promessa em nome do Deus terrível!

Mas relembra, impiedoso:

- Não valeis para mais que estardes arrojados como um cadáver de povo, sem alma, e em cujas veias não corre sangue?

Acha-se encerrado no poema de Ângelo Monteiro (podemos considerá-lo assim, porque não há desvio para outro tema) um longo ciclo das estações temporárias do ser sobre a face do planeta. O misticismo guardando o pó desconhecido respirável. Ele não tem pretensão de ser catalogado como visionário pesquisador das catástrofes do paraíso:

"Conhecemos as coisas só de ausência,
e ao dizermos que a ausência é a presença, 
por acaso também nos enganamos?"

Há um esforço visível para transformar a idéia numa síntese decifradora, sem memória romântica ou minúcias desnecessárias, alargando o panorama contemporâneo do medo correndo no sangue desde o nascimento. E faz-se mister lembrar que este livro deve ser lido com o pensamento no destino universal, de ontem e de hoje, dos homens como marionetes de espetáculo passageiro:

"Que contornam seus vestos nessa ausência:
- sonâmbulo, passeando entre jardins,
embora sem transpor estreitas portas?"

A atmosfera literária cede lugar ao julgamento sagrado da hierarquia transcendental, e é assim que O Inquisidor mantém o severo rigor para todos os pecados, com o poeta assumindo a posição em carne e osso. O drama se sobressai bem delineado, e ele não se coloca em plano superior, nem toma partido da vida alheia. Avulta com altivez a sombra do Inevitável:

"Pois Deus é, ao mesmo tempo, o Pai
de toda a expectação, o Senhor da Espera,
o Fogo Violentador e Purificador
de toda a esperança. Amém".

Remanescente espiritual das grandes guerras humanas, continua o fluxo episódico, onírico. Erra como se tivesse achado um diário em ruínas de casebres e palácios, no deserto e na água da fonte, escrito com letras escarlates. Interliga os fatos, as idades, em benefício da digressão trágica: "Não me tortures mais, Senhor da Espera./Sabes que sou poeta e auxiliar do Anjo./Sabes que sou teu teu cúmplice/e sofro apenas por não conseguir/salvar-me de ti".

O Inquisidor, de Ângelo Monteiro, portanto, adquire o valor de uma odisséia averiguada diariamente nos extensos limites das civilizações. Chama bruxoleante pelos contornos de todas as fronteiras. Mas resta sempre uma esperança para o desespero da profecia, o que mostra não ser um idólatra da violência, mesmo que haja para ela um fundamento bíblico: "E o Deus me recrimina em tom de bênção,/e apesar de o ter vilmente traído,/depois de confundir todas as vozes/(as dos anjos e as do demônio)/ainda me faz reencontrar o eco sagrado de sua voz/há tanto tempo perdida".

É a ressurreição do homem.

Jornal do Commercio, agosto/1976.

Autor: 
Severino Filgueira

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