Poesia em pânico

Dividida em duas partes, uma calcada nos severos tercetos decassílabos, e a outra nos versos livres, O Inquisidor indica, antes de mais nada, uma postura épica ante os rumos existenciais do homem, uma espécie de inquisição aos valores materiais e espirituais de nosso tempo, e que levou Ângelo Monteiro a criar uma atmosfera tensa na densidade de sua palavra. Mas foi, principalmente, no manejo com imagens de cunho visual e concreto, que o poeta encaixou palavras com tal nível de abertura que ganharam com a constância do aparecimento a força significativa de Símbolos.

É por inquirir o mundo através da poesia que Ângelo Monteiro mantém um lado objetivo no seu trabalho de linguagem. Mas acontece que, como um Blake, não deixou de lado a vivência emotiva, a projeção espontânea do eu, dos desencontros do poeta ocupado em questionar o absoluto, estando por isso mesmo além das circunstâncias, além da Waste Land do século.

A poesia de Ângelo Monteiro é mística pela recorrência freqüente a elementos bíblicos, embora não se leve demais pela mitologia religiosa. É mística, mas procurando sempre desvendar o Mistério no centro ambíguo da palavra. E neste gesto épico e existencial, O Inquisidor se desenvolve dentro dos antigos limites do poema discursivo.

Jornal do Brasil, janeiro/1977. 

Autor: 
Carlos Augusto Corrêa

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