Ângelo além da expectação

Dentre os poetas que apareceram de 1960 para cá, aos quais se costuma chamar de geração 65, Ângelo Monteiro é um dos poucos a possuir uma forma definidora da sua existência artística. A isso chegou, como bem demonstra a poesia de O INQUISIDOR, sem, em momento nenhum da sua evolução, se tornar publicista ou discípulo de qualquer de seus contemporâneos, nem de nomes anteriores, ou, ainda, sem se engajar a qualquer força contextual que não fosse aquela dinamizadora do ideal artístico. Sob esse aspecto, o poeta da PROCLAMAÇÃO DO VERDE talvez seja o valor mais puro e significativo da sua geração.

Nele, diversamente do que ocorre à grande maioria, não nos deparamos com a presença formal de João Cabral de Melo Neto, a sonância irônica de Drummond ou o ritmo devolvedor que serviu de lastro à geração de 45. Apenas porque muito próxima às reminiscências os primeiros poemas de Ângelo Monteiro revela a sua admiração pelo poeta de VERTIGEM LÚCIDA, mas, ainda aí, a influência é mínima: o mais se denuncia pelo ritmo, o uso de certas palavras, ou o leve encadeamento de imagens entremeadas de instantes musicais. Influência que mais significa propriamente contemporaneidade de vida.

E se, num ou noutro poema, somos levados à recordação de marcos ou fases anteriores da literatura ocidental, impossível se torna a identificação daquele ou daqueles que teriam servido de estímulo à ação de Ângelo Monteiro.

A sua poesia, nem porisso, se foi depurando continuamente, a ponto de encontrar-se hoje a fluir numa linguagem totalmente despojada. Nada de aparato. Nada de condicionantes. Nada de sonoridade ou mesmo de imagens. De tudo isso apenas o essencial para que o pensamento penetre esteticamente por entre os seres, perguntando-lhes pela ordem de valores negados ou pela face ou faces desconhecidas do universo.

Realmente, enquanto Ângelo, antes, com PROCLAMAÇÃO DO VERDE, volta à "Amiga, como as águas há muito represadas sob a terra" e, além do mais, trazendo "a solidão como um tigre no peito", já agora, com O INQUISIDOR, ele observa "em que deserto a lágrima invisível, só para não chorar, desencantou-se e se perdeu, no seu pudor de nada?" Ou ainda, indaga: "Os lábios se consomem noutros lábios/ou, em beijar, se esquecem?"; "Por que se perde o sangue na espessura/da noite do outro sangue?"; ou finalmente afirma: "Há um frio que não dorme nessa espera/de braços arrancados".

A arte de Ângelo Monteiro, atualmente, cada vez mais se desmaterializando ou se sobrepondo, mais que ao próprio contexto, à realidade tangível, como que se orientaliza: ao estético se chega pela meditação, bem mais que pela noção. Há, em O INQUISIDOR, aqui e ali, portas que se abrem em direção misteriosa, delas provindo uma claridade que não é propriamente efeito luminoso, antes a lembrança de certas verdades que cintilam no interior de cada um.

Como deixamos entrever acima, a poesia de O INQUISIDOR não se sustenta em nenhum lastro emocional, até mesmo porque o poeta, investindo contra as situações atuais da existência, resolveu inquirir sobre a ausência da verdade: o que existe ou é objeto da nossa contemplação, à primeira vista, não passa de uma face viciada do universo, e face a que nos acostumamos de muito, sem jamais atentarmos para o fato de que vivemos cercados por valores irreais.

No poema DÉCIMO SEXTA TEMA SEM JÚBILO, o poeta adverte sobre aquela realidade, quando diz: "Como se infiltra, agônico, nos lábios/o sumo dessa taça indesejada/que nós jamais por nossas mãos erguemos?". Igualmente, no poema EXPECTAÇÃO N. 3, volta ele a sugeri-la: "E muitos chegam ao fim do próprio drama/ sem perceber que em sua vida trouxeram/o Deus adormecido". E, consciente daquela condição de que somos vítimas, chega Ângelo Monteiro a concluir, quando do poema EXPECTAÇÃO N. 4: "Iniciei a minha vida pública/semeando equívocos, de qualquer forma melhores/que as pretensões habituais/dos falsos sustentadores da ordem do mundo".

Como poucos entre nós, o autor de O INQUISIDOR consegue despontar da azáfama de questiúnculas sobre a viabilidade ou inviabilidade de certos processos ou técnicas, para a realização de uma obra autêntica, preferindo ele, ao contrário da generalidade, desnudar-se e aparecer intocado pelo transitório formalístico. Com isso, a sua poesia apenas tem como condicionante, de poema a poema, aquela disposição de expectar o sentido das coisas, para flagrar a verdade, então revestida pela beleza, onde quer que a mesma esteja.

Uma poesia, assim buscada e desenvolvida, verdadeiramente pouco tem a ver com os nervos. Ao contrário, servindo-se do pensamento conjunto esse condicionado pela emoção, caminha em paralelo com a filosofia, ora sob o bafejo da moral, ora do místico, mas sempre a transcender daquela realidade a que combate ou contra a qual inquire.

Jornal do Commercio, julho/1975.

Autor: 
Audálio Alves

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