Sobre o Inquisidor

Eu bem sei em que sentido o poeta empregou a palavra-título do seu livro, mas como essa palavra me cheira mal em todos os sentidos. Confesso que essa atmosfera medieval, infelizmente revivida, hoje em dia, nos vários quadrantes da terra, me torna incômodo. Eu bem sei que ao poeta cabe, também, interrogar o mundo, mas não julgo que a ele caiba inquirir como se do alto de uma mesa de justiça pudesse dizer a última palavra e lançar o seu veredito.

Por outro lado (isto é um ponto de vista inteiramente pessoal, que assumo, ao mesmo tempo reconhecendo o direito que cada qual tem de tomar a sua linha estética qualquer que ela seja), uma poesia, mesmo altamente artística como é o caso da de Ângelo Monteiro, inteiramente construída, trabalhada e propositadamente intelectual, parece-me desnecessária no mundo que estamos vivendo, quando a condição humana desce tão baixo e por ela são urgentes tantos gritos.

De um ponto de vista estético simplesmente leio os versos de Ângelo Monteiro e reconheço a beleza neles existente, mas estes, por exemplo, me arrepiam pelo que possam orientar: "Das mãos as chamas são interrogantes,/à medida que queimam: ou navegantes/nas ondas desse fogo que interroga"? Ao mesmo tempo, no entanto, misturando pregação a revolta, o poeta pode dizer-nos: "Os sinistros que querem nessa dança/em torno à mesa oval, ao som dos pratos,/com seus mantos berrantes como os olhos"?

Estou inquieto com a poesia de Ângelo Monteiro e preocupado pelo que ela possa sugerir. Só que, no mundo, as palavras voam para o bem ou para o mal e eu espero que as interpretações sejam outras, porque do poeta o que pode partir é o alicerce do homem.

Jornal da Cidade, Recife, 24 a 30 de abril de 1976. 

Autor: 
Hermilo Borba Filho

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