Visões produzidas por um poema de Ângelo Monteiro

"Os únicos personagens vivos são os anjos", afirma categórico o grande mensageiro da palavra - o poeta Ângelo Monteiro. Não se precisa indagar em profundidade a origem mística determinada dos seus mais exacerbados instantes de vertigem criadora, quando lemos o seu poema Revelação do Maravilhoso. São visões que envolvem, mesmo na literalidade das palavras, a fascinante inquietude de um homem que se inicia decididamente na mística do Universo.

Místico não apenas como um homem que detém a insaciável sede de compreensão, ou desejo de assimilar todas as verdades ditas ou não pronunciadas, mas como dono da ardente vontade de sintetizar e unificar a visível desagregação do conhecimento humano e, sobretudo, maestro do ímpeto agregador que se transforma numa chama e se transfigura em luz.

Neste canto dedicado ao Maravilhoso não se pode pensar em particularidades, detalhes, fragmentos, centelhas. Há, em toda a estrutura, uma unidade final: exaltação ao Maravilhoso ou à Beleza como conseqüência da possibilidade que tem o homem de arquitetar sonhos e desfazê-los quando dotado de uma proficiente capacidade de persistência e sinceridade, porque só nessa hipótese poderá reerguê-los completamente. Aqui, suponho, reside um ponto coincidente entre o místico e o cientista: a persistência e a sinceridade. Os resultados, com certeza, são diferentes. O cientista poderá utilizar os seus experimentos milhares de vezes, chegando, em regra, a um mesmo resultado. O místico, porém, sempre estará possuído de um estado de consciência mutável, porque a ele não se enquadram as mesmas concepções mecanicistas que tanto impressionam aos lógicos. Os versos ou versículos de Ângelo Monteiro se voltam absolutamente às entidades eternas, às paredes dos céus. Não existe, em nenhuma passagem do seu poema, lugar para divagações menores. Nem mesmo a morte, que constitui fator de limitação e fonte originária de aniquilamento a tantas mentes humanas, tem nele o tratamento comum. Ela é tratada como se fosse um obstáculo sem importância na ordem da vida. Claro que "vida", para ele, é existência plena, cósmica, imponderável como "... a palavra de asas poderosas/e erguidas contra as âncoras da morte".

O que mais me impressiona na poesia de Ângelo Monteiro, sobretudo nos versículos reunidos sob o título Revelação do Maravilhoso, é a incontida capacidade que eles comportam de sugerir uma das mais difíceis verdades: a de que normalmente os homens profanos só vêem na vida uma seqüência de nascimentos e mortes. Quantas e quantas criaturas vivem preocupadas tão somente com a contagem regressiva dos seus dias, pensando no momento zero da partida? Às vezes olho para essas pessoas e, de repente, elas perdem a forma de criaturas arquitetadas à semelhança de Deus e se transformam em foguetes ou meras máquinas que encontram na sua destinação mecânica o ideal de sua finalidade humana. Falta-lhes, portanto, a fé ou a visão de outros valores da vida. Idéias que simbolizam juventude, saúde, imortalidade ou mesmo regeneração espiritual.

Revelação do Maravilhoso, último poema que integra o livro Armorial de um Caçador de Nuvens, de Ângelo Monteiro, tem a força necessária de nos sugerir tais idéias. O poeta consegue defender a existência de um elemento que integra a grande Árvore da Vida, e que nunca poderá ser violado por completo. E proclama que "O Maravilhoso me tomou sobre os seus ombros/e concitou-me à descoberta/do que por trás de todas as aparências/clama para ser violado:/numa violação que NUNCA ROMPA/POR COMPLETO O TECIDO E O VÉU DAS COISAS/que circundam o altar da realidade".

Não me resta dúvida de que o poeta se refere misticamente ao mistério que envolve a aparição da Vida. E esse mistério, que não se sabe ainda ser ou não fruto de uma pré-existência que se continua num estado de post-existência, chega a ser fortemente sugerido. Ora, se o poeta tem faro suficiente para nos fazer sentir tal mistério, ele existe por trás de uma incomensurável barreira invisível, cifrado por mitos e cadências cósmicas que só alguns poetas conseguem captar.

Diante dessas visões, uma verdade se afigura plenamente pronunciada: a morte é uma forma de existência do homem. A morte biológica não exclui a existência do espiritual. Por compreender tudo isso, suspeito de que o poeta Ângelo Monteiro eternizou essa idéia nos seguintes versículos:

"ninguém chegará
sem a fé no impossível,
e a boca sem o fogo da palavra,
e os olhos desertos do Maravilhoso,
perante o altar triangular da grande Musa
que dos seus seios jorra a fonte perpétua
e insaciável
das muitas águas da eternidade".

Jornal do Commercio, julho/1974.

Autor: 
Cláudio Aguiar

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