Tratado da Lavação da Burra - Humor Sério

Intrigado pelo título, pedi por telefone a uma livraria do Recife que me enviasse, pelo reembolso postal, o Tratado da Lavação da Burra, de Ângelo Monteiro, cuja publicação vi anunciada certo dia na coluna de Marcus Prado, do DIÁRIO DE PERNAMBUCO, que leio religiosamente aqui em São Paulo. Supus que se tratasse de livro de humor. Quando o tive nas mãos, e verifiquei que vinha prefaciado por Nelson Saldanha, mudei de impressão, passando então a crer que o opúsculo seria coisa séria. Ao lê-lo pela primeira vez, cheguei à conclusão de que o "Tratado" era na verdade livro de "humor sério". Não, livro de humor-piada ou de humor-trocadilho. Nem sério no sentido de sisudo ou analítico. Mas o que acabei lendo foi um tratado de 69 páginas impregnado de algo que poderia chamar de "humor-compreensivo", com que o autor recolhe dados desta nossa realidade brasileira, aliás tão carente de novos intérpretes, para conseguir sintetizar o que há de realmente constante e "compreensível" na singularidade existencial do brasileiro.

Compreender quer dizer identificar conexões de sentidos. Apreender o que há de geral, de comum, de verdadeiro em nosso sabido universo de contradições e surpresas sociológicas e históricas. Apreender o sentido ou a falta de sentido de nossa cultura, às vezes tão teorizada e dissecada que chega a se tornar "incompreensível". Pois o "tratado" mostra precisamente o que é "compreender" esses Brasis surrealistas que concretamente sentimos, apesar dos confusos e graúdos tomos que esbanjam erudição e se desmandam em propostas inconclusivas, como por exemplo esses que os "Brazilianists" nos vêm impingindo certamente apenas para nos cansar. Sentir é compreender. Por isso, como Ângelo Monteiro sentiu o Brasil, pôde amarrar sua antropologia compreensiva bem no centro da verdade que conseguimos às vezes adivinhar por partes, sem sermos hábeis suficientemente para totalizar no global, no abrangente, essa verdade difusa que é a nossa verdade.

A compreensão da lavação da burra, mostra, mais, que somos absolutamente incompreensíveis. Quem nos sabe? Quem poderia prever as nossas sistemáticas imprevisibilidades?

Um dia desses, tendo sugerido a alunos que lessem Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, agora, no seu jubileu de ouro, fui abordado por um pasmado que me perguntou se deveria procurar o livro na estante de botânica brasileira.

Essa parva e radical ignorância, por sua vez, apesar de trágica aos olhos medianamente ilustrados de um professor de direito, também faz parte da tal realidade que é preciso compreender, dessa estupidez coletiva a subjugar nas novelas qualquer boa intenção da juventude, a qual recebe da Universidade, por sua vez, uma mensagem que não se casa bem com o vivido no mundo concreto. Não poucos universitários identificam Macunaíma com Grande Otelo, que acham engraçado sem desconfiar do que significa a preguiça nacional, nem, muito menos, de que existiu um dia um escritor que se chamava Mário de Andrade e que concebeu alegoricamente (e não alegremente) o herói sem nenhum caráter, procurando plasmar na figurinha a neutralidade de valores que vêm a ser o nosso caráter.

O "tratado" classifica metodicamente nossas subserviências, o que sugere que ensaiemos a teoria geral da acomodação, baseada, em grande parte, no convencional, no retórico, no escrito, no consagrado. Por isso, o poeta das pombas ficou prisioneiro de seu antológico soneto e abafou, com sua cristalizada fama e à custa da repetição mecânica de seu valor, o gênio poético sem dúvida melhor de Farias Neves Sobrinho ou o estro mais sensível de Da Costa e Silva. Outro dia vi um amigo aniversariante desconfiar de um presente que lhe havia dado: as poesias completas do poeta piauiense da saudade - pensou que se tratasse de algum parente do marechal e até hoje me diz que os poemas são bonzinhos, bonzinhos, mas que evidentemente Raymundo Correia ou Olavo Bilac são mais conhecidos. Ergo, melhores.

Ninguém quer perder. Nem tempo, nem dinheiro, embora possa perder a cara. Um viajor deslumbrado me garantiu, recentemente, que não há como a Espanha para ter boa água mineral com gás. Pode até ser verdade. Mas, uma vez que viajou à Europa, cumpre dizê-lo. E logo haverá por certo legiões a proclamarem que a melhor água mineral com gás que se bebe no mundo é a da Espanha.

Não podemos nos dar por pegos. Somos infalíveis e achamos explicação para tudo. Não gostamos de ser surpreendidos, pois somos enciclopédicos e sabemos universalmente todas as coisas. E se alguma decepção nos ocorre, acudimos com a sentença consoladora de Brás Cubas: antes cair nas nuvens do que do terceiro andar. Devemos a Machado de Assis essa fórmula mágica de disfarçar nosso pasmo pelo insuspeitado, que acontece fora e além do previsto. Purgamos nossas vergonhas mentais com frases de efeito, como nos desculpamos de nossos apontados equívocos invocando a imbatível autoridade do livro ("está escrito aqui, olha aqui"). A letra de forma impressa é o padrão de nossas certezas.

Vivemos como podemos. É pena que sempre foi assim. Como não tínhamos nobrezas de verdade, adquirimos títulos e diplomas, do Papa e do Imperador. Inventamos a Guarda Nacional para construir a dignidade legitimadora de um tipo especial de dominação, como já se demonstrou weberianamente na fantasia do Minotauro Imperial.

E como fugimos facilmente da realidade, idealizamos o que gostaríamos de ser e de fazer. Idealizamos até mesmo o ficarmos ricos ou remediados, no dia em que, afinal, soar nossa hora de lavar a burra. O concreto nos espanta: há por exemplo historiadores que historiam sem examinar documentos, só com base em outros historiadores. Temos sempre que subir, que transcender, pois para baixo não há nada (a não ser a realidade). Apreciamos habitar nas nuvens, embora raramente decolemos. Enfim, idealizamos a vida. E sempre aguardamos o momento supremo de lavar a burra. Mas que ela venha para ser lavada, porque procurá-la para ir lavá-la é trabalhar na forma ativa do verbo. É bom que a burra chegue, pois ir atrás dela implica em carregar nas costas a tarefa íngreme e ingrata de romper com o imobilismo visceral. A burra acaba vindo, desabando um dia sobre nossas cabeças. Felizmente, já que Deus é brasileiro.

Diário de Pernambuco, fevereiro/1987.
Revista Brasileira de Filosofia, vol. XXVI, Fasc. 146, abril/maio/junho-1987.

Autor: 
José Alexandre Tavares Guerreiro

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