Leitura Marxista da Lavação da Burra

O que é "lavar a burra"? É, segundo Ângelo Monteiro, "o milagre de ser sem esforço".(P.19) É uma característica de "caráter brasileiro", messiânico em essência, pois apesar do presente miserável, que é vivido, no entanto, festivamente, não se preocupa em pensar um projeto político para o País como um todo, mas apenas em "lavar a burra" individualmente e em breve : o advento da "Lavação da Burra".

À primeira vista, portanto, o livro de Ângelo Monteiro pode parecer ser apenas uma ironia filosófica sobre o "caráter brasileiro", que se expressa admiravelmente bem nessa nebulosa mas sempre prevista possibilidade de "lavar a burra", e nada mais... Como se, apesar de tê-lo sido assim há quatro séculos, fosse também imutável para todo o sempre.

Isto levaria a eternização da possibilidade de "lavar a burra", o que seria, evidentemente, a perpetuação da burrice que nasceu da crença de ser permitido a todos o direito de lavá-la um dia.

Na verdade, "lavar a burra" é a manifestação da ideologia das elites tupiniquins ... A burguesia, que sempre lavou a burra, e deseja continuar a lavá-la, criou e difundiu na população a idéia falsa de que "lavar a burra" é uma possibilidade real para todos. Ou seja, as classes dominantes, que continuam lavando a burra, recolheram da Cultura Popular o termo e infundiram nas classes dominadas a crença de que elas (as lasses dominantes), lavaram e lavam a burra por competência. Para os dominados, criaram o mito de que a possibilidade de "lavar a burra" está aberta por dois caminhos: o da aquisição da competência através do esforço pessoal e o da sorte (ganhar na loteria, por exemplo).

Através dessa ideologia, as classes dominantes continuam cada vez mais ricas, por meio da acumulação permanente e ampliada do Capital, ou, o que dá no mesmo, da lavação constante da burra... e as classes dominadas - o povão -, continuam procurando (atomizadas, porque a "lavação da burra" deve ser um projeto individual por excelência: "ser é lavar a minha burra" (p.37) visualizar os rastros da burra para segurá-la pelo rabo e lavá-la, bem escondido de todos.

"Lavar a burra é, portanto, a irônica e mais pertinente expressão nordestina para caracterizar a ideologia dominante da nossa sociedade. E a prova de que ela é dominante está na sua profunda penetração nas mentes populares: todos querem "lavar a burra", porém poucos o conseguem. É, enfim, uma ideologia feita para a dominação, a burra não existe para as classes dominadas, ela é um mito que mantém o povão isolado, sem projetos políticos reais para o seu futuro e portanto para o futuro do seu País, pois isto lhe parece desnecessário, desde que acredita que a burra existe, assim como a possibilidade de lavá-la. Como afirma o Poeta: "Comemos um capim que as alimárias mais remotas rejeitaram, e o nosso futuro se endereça a uma burra que não conhecemos. Tanto melhor: o nome disso é mito. Para os que nunca o tiveram, é mito tudo o mais". (p.67)

Enquanto isto, as classes dominantes continuam reproduzindo as relações sociais que lhes permitem continuar lavando a burra...

O livro, portanto, não é apenas uma sátira genial e jocosa do "caráter brasileiro". Ele é, antes de tudo, uma crítica mordaz, à maneira de Voltaire, da ideologia dominante do nosso sofrido País e da crença ingênua do nosso povo nessa ideologia. Como tal, portanto, o livro tem um projeto político: Esqueçamos, nós os dominados, a burra burguesa, pois ela só existe para eles. Para nós, os pobre, só existe uma possibilidade real de lavarmos a burra: unirmo-nos e criarmos um projeto político próprio (a "nossa" burra), para, através das mudanças das nossas arcaicas estruturas econômicas e políticas, criarmos a possibilidade concreta de que todos um dia possamos lavar a burra, coletivamente.

Diário de Pernambuco, novembro/1986.

Autor: 
Tarcísio Marcos Alves

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