Roteiro Semanal

Termino a última página do livro de Ângelo Monteiro - Tratado da Lavação da Burra ou Introdução à Transcendência Brasileira (Edições Bagaço, Palmares, PE, 1986) - e te digo, incauto leitor, com um sentimento vivo de prazer intelectual, mas, também, com uma ponta de gelo no coração. Ângelo se faz um estranho clown, pirueta no espaço, sacode-se nos ares na geometria imprevisível de um acrobata insano e ri despudoradamente, insolente, um riso alto e cristalino, pouco a pouco, se afogando em pianíssimo angustiado, na explosão de um soluço insopitável.

Nelson Saldanha, no prefácio, sempre exato e luminoso, lembra o Elogia da Loucura, de Erasmo. De logo me ocorreram as palavras do homem de Roterdam ao seu amigo Tomás Morus, falando-lhe do seu insólito livro: "Nada mais tolo do que tratar a sério de frioleiras; nada mais espirituoso do que por a frivolidade ao serviço do que é sério. Compete aos outros o julgarem-me, mas se a filáucia não me perturba, creio que louvei a estultícia de maneira não muito estulta".

O poeta admirável Ângelo Monteiro não ensina impunemente filosofia. Tem uma cabeça rendidamente lógica e no aparente caos de suas idéias e astúcias fremem os lineamentos de uma arquitetura racional, uma ontos que o persegue, aflige, disciplina-lhe os golpes de espadachim cigano ou, quem sabe, a malícia da lança, indisfarçadamente, de aço manchego.

Pintou um retrato provocante de nossa alma. Roubou-lhe a ordem arcaica dos traços oficiais, o comportamento produzido pelo império dos estamentos sociais consagrados. Carregou as tintas, enviezou olhares, inchou bochechas, fez torsos e pernas distorcidas. Uma caricatura, apenas? Parece-me mais, há algo picassiano nesse desmonte de estruturas convencionais, um mergulho no limbo de formas novas, larvares, a invenção de uma metodologia inusitada, para a qual no princípio era o caos, e o caos era bom...

Te digo, paciente leitor, vale a pena descer com Ângelo nesse mergulho surrealista, zombar e sofrer, ferir e curar, descrer e esperar, a mão cansada da lavação, a dourada burra pastando o futuro e o sonho.

Diário de Pernambuco, 1986.

Autor: 
Potiguar Matos

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