Um Poeta

No estudo que escreveu sobre Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire disse ser um "prazer bem grande e bem útil comparar os traços fisionômicos dum grande homem com as suas obras". Ângelo Monteiro, fisicamente, é bem um brasileiro do Nordeste. Magro - quase raquítico - pode lembrar um beato dos últimos dias de Canudos, saltando das páginas de um Euclides da Cunha. Mas, envolvendo aquele quase raquitismo e a impressão de fragilidade, existe uma espécie de "karma", uma força interior, uma fome de conhecimento, um rebanho de danações que ele tenta ou apaziguar ou soltar de uma vez na fúria e na paz da sua poesia. Renato Carneiro Campos - certa vez, num artigo para o Diário de Pernambuco - considerou Ângelo chapliniano. Realmente, ele lembra Carlitos. Lembra Carlitos quando se recusa a fazer da sua vida uma rendição permanente a "realidades impostas" pelos excessivamente lógicos. Quando se recusa a fazer da sua vida uma aceitação de conveniências e conivências mesquinhas com poderosos e poderes de um cotidiano menor do que o sonho. Enganam-se os que pensam que a realidade - que pode ser os limites das nossas ignorâncias ou conhecimentos - é maior do que o poder do sonho. O sonho que se consubstancia numa fé, num amor, num ideal, ainda justifica que se viva e que se morra. Salva, mata, perde, descobre e reencontra caminhos.

Precisamos de Quixotes. Não menos do que de Sanchos. Finalmente, estamos todos vivendo uma época onde somos Sanchos Panças à procura de Quixotes que nos iluminem com as suas boas e generosas loucuras.

Ângelo Monteiro tem muito de um Quixote. Também é nobre ao seu modo: "Tenho tudo de um príncipe,/Menos o fato mesmo de ser príncipe,/E a posse real de um principado".

Nos versos acima ele expressa muito bem a força do sonho ultrapassando ou tornando maior a realidade. No mesmo poema, reconhece que "nenhuma nobreza/vale o sacrifício do sonho". Sabe que lhe foi dado um grande poder, o poder de ser poeta, a força de ser forte por compreender e intuir realidades e traduzir sonhos, sem se julgar menor ou maior do que ninguém. Nisso, ele é um príncipe. De uma nobreza que não é a do sangue, mas dos rebelados, dos iluminados, dos Carlitos, dos Quixotes, de uma nobreza que possui tanto um Drummond quanto um João Martins de Athayde, a nobreza dos que buscam semear nos monturos do mundo as sementes da beleza e da esperança na condição humana.

Tenho um grande orgulho de ser contemporâneo desse poeta, um dos melhores desse país em todos os tempos. E vejo-o muitas vezes passar pelas ruas despercebido, carregando a sua caravana de sonhos, sustentando nos seus ombros magros a imensa responsabilidade de ser um poeta.

Diário de Pernambuco, 1983

Autor: 
Maximiano Campos

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