O Ignorado e a Moral

A afirmação de William Buttler Yeats: "Por que devemos honrar aqueles que morrem no campo de batalha? Um homem pode mostrar a mesma coragem penetrando no abismo de si mesmo", que descobri num ensaio de Richard Ellman sobre o poeta irlandês, pode, embora não rigorosamente, ilustrar qualquer comentário mais ou menos conseqüente sobre O Ignorado, que Ângelo Monteiro acaba de publicar pelas Edições Pirata. O que Yeats afirmou tem muito a ver com o problema da moral (lembre-se o leitor do "Conhece-te a ti mesmo" socrático), e outra não é, creio eu, a preocupação principal a ser extraída do conteúdo de O Ignorado. A ilustração só não é rigorosa pelo simples fato de o livro de Ângelo Monteiro estar, aqui e ali, revestido de forte sentimento religioso. Resta saber, porém, se o mesmo não acontece com a constatação de Yeats. Moral é uma coisa, religião é outra, mas não é de bom tom pensar em atitudes religiosas que não estejam devidamente reforçadas por uma base moral.

Só assim, e aí as minhas dúvidas são mínimas, podemos discutir com propriedade de livro tão complexo e problemático. No entanto, sabedor de que Ângelo Monteiro é poeta, e um poeta atende mais aos interesses da poesia que da moral, por mais relevantes que sejam os interesses da moral, qualquer leitor atento poderia replicar com a seguinte indagação: "Por que o articulista preferiu interpretar sob o ponto de vista da moral um conteúdo que só faz cultivar os duendes da fantasia?" Se fosse o caso, eu diria que nem toda fantasia é produto de cegueira intelectual. E mais: uma fantasia articulada não é uma coisa à toa.

Vamos adiante.

É certo que, na história da literatura, não são raros os casos de poetas alheios à moral. Ou - explicando melhor - não são raros os casos de poetas que gravitaram em torno de um universo moral singularmente oposto àquela espécie de moral convencional postulada por outros mortais, poetas ou não. E também é verdade que Ângelo Monteiro não é apenas um ser de imaginação e de crença religiosa profundas, mas, ao mesmo tempo, e isto não é desimportante, um professor de filosofia para quem a leitura dos filósofos proporciona, não raro, respostas satisfatórias para algumas das mais intrincadas questões humanas. E a moral é uma questão humana a que nenhum filósofo ficou indiferente. Se alguma fantasia abre picadas através do texto de Ângelo, a estranheza desaparece com a simples verificação de que ele é, principalmente, poeta. E ser poeta não é coisa de somenos importância, mesmo numa época em que o processo de degradação da palavra assume proporções de caráter trágico.

Mas não posso garantir que a preocupação de O Ignorado com a moral vá passar incólume diante dos olhos de certos leitores. A palavra moral costuma provocar muita controvérsia, além de alimentar distorções as mais variadas. Porque as pessoas sempre encaram a moral como sendo aquela parte da filosofia que trata dos costumes ou dos deveres do homem, e esquecem com facilidade que ela também diz respeito ao domínio espiritual.

Conheço Ângelo Monteiro o suficiente para acreditar que ele teme o advento de uma era em que os costumes possam estar completamente degradados. E sei que não lhe apraz considerar um mundo em que as criaturas tenham perdido o real sentido de suas mais prementes responsabilidades. Mas uma leitura não preconceituosa de O Ignorado fatalmente revelará que o que mais apavora Ângelo Monteiro é saber que este é um mundo onde o embuste de natureza espiritual, geralmente imbuído de bela aparência exterior, galvanizou de tal forma o gosto das pessoas que ninguém é mais capaz de estabelecer distinções. Em tempos mais sérios, o joio não demorava muito misturado ao trigo. Hoje, porém, é diferente. Há pouco espírito, mas sobra embuste. Eis um mundo no qual "os melhores não têm nenhuma convicção e só os piores são capazes de sentir com intensidade" (a citação vem entre aspas mas não é literal, trata-se de um célebre verso de, mais uma vez, Yeats).

Mas esta situação - mais grave em certos momentos históricos do que em outros - não chega a ser assim tão nova. Portanto, não é o autor de O Ignorado o primeiro intelectual criador a padecer tormentos por causa dela. "A literatura, hoje, é conversa fiada, é trapaça, é charlatanismo. Resvala para o nível das bolsas dos negócios e para a vaidade. A diferença entre a boa e a má literatura - que eu tanto prezava antes - cada vez menos a percebo". Isto foi escrito por um poeta com queda para moralista, o alemão Hermann Hesse, em 1921. Hesse expressava, desolado, sua "crescente convicção de completo vazio, de decadência e degradação da cultura e da literatura alemãs".

Antes do autor de "O Jogo das Contas de Vidro", já outro alemão meditava sobre a "derrocada" da cultura alemã. De fato, Nietzsche - que, como se sabe, tinha horror a embusteiros - contrapunha à cultura alemã a cultura francesa, ao advertir que a vitória dos canhões alemães na guerra de 1870 não diminuíra o que ele chamava de "superioridade do espírito francês". No Brasil de hoje ninguém tem coragem de investir contra os embusteiros do espírito. Ninguém tem coragem de dizer aos contistas mineiros, aos novíssimos compositores populares, aos cineastas que não souberam conservar acesa a chama fulgurante do Cinema Novo, à nova geração de professores universitários, que nenhum deles tem a mínima noção do que significa cultura. A verdade é que eles apagaram os vestígios da cultura em nosso meio, e ninguém diz nada contra. Fica a impressão de que todos estão satisfeitos com o império da mediocridade.

Nós brasileiros cultivamos o triste hábito de somente raciocinar por oposição. Inventamos inimigos de todas as espécies. Temos, principalmente, inimigos ideológicos. E morte aos inimigos ideológicos. Quem perde com isso, sem dúvida, é o Brasil. Perde porque os brasileiros não aproveitam a chance de estabelecer alianças valiosas. Perde porque não querem assimilar, a partir do espírito de quem ideologicamente está situado do outro lado, o que pode servir para o enriquecimento de nossa cultura. Assim, compreende-se como natural que todo brasileiro capaz de fazer algumas boas críticas aos brasileiros será sempre considerado um mau brasileiro. O Brasil de hoje é um país preocupado única e exclusivamente com o preço do barril de petróleo, mas completamente alheio aos valores da cultura. Não é de espantar que as verbas destinadas a tal setor sejam tão insignificantes. Resolvendo a equação proposta pelos nossos governantes, esbarramos na seguinte situação: nem os governantes resolvem o problema referente ao petróleo, nem procuram educar os espíritos que, amanhã ou depois, levariam o Brasil a formar entre os países civilizados.

Mas, voltando ao livro de Ângelo Monteiro, eu diria que este arregimentará legiões de leitores decepcionados. E decepcionados por uma razão muito simples: O Ignorado é um livro arredio a compromissos corriqueiros deformadores da vida. Considero-o um livro poeticamente superior. Não quero com isso dizer que Ângelo seja, dentre os seus companheiros de geração, o que melhor sabe manipular técnicas e conteúdos poéticos. Nem tampouco quero insinuar que ele seja um poeta mais sincero que os outros poetas do seu tempo. Quero, porém, expressar o meu contentamento por saber que valores morais e espirituais de inconfundível dignidade são, em O Ignorado, revelados com coragem e profundidade raras entre nós. Podemos ser sinceros sem, contudo, estarmos sendo verdadeiros. Nossa técnica pode ser a mais perfeita do mundo, mas nem sempre estamos a salvo da pior de todas as mortes, que é a morte do espírito. Freqüentemente, enganamo-nos a nós mesmos - o que não é menos danoso do que enganar aos outros. Mas o Ângelo Monteiro de O Ignorado não quer enganar a ninguém, muito menos a si mesmo.

Há, em O Ignorado, passagens dignas de reflexão. Algumas interessam particularmente a poetas. É o caso da que se segue : "Cada época tem sua astúcia. Mas além da astúcia está o lago. O lago em que o Patinho Feio se reencontrou, segundo Andersen. E onde Narciso se perdeu, segundo o mito grego. Cada época precisa ir além de Narciso. Precisa recolher, em meio ao caos que sempre houve, os paradigmas eternos. A arte, emergindo da vida, deve ser por isso paradigmática: não pode abandonar os arquétipos. Deve também ser normativa: ensinar ao homem a sua redescoberta". Sei de poetas que sabiam disso, mas desaprenderam tudo. Ou sentiram vergonha de conservar em si, intacto, o sentido de originalidade que antigamente caracterizava os temperamentos poéticos. Marx admirava Heine, Holderlin e Shakespeare, além dos trágicos gregos, mas os nossos poetas acham que devem satisfações aos adeptos do materialismo dialético, hoje entrincheirados contra a poesia arquetípica. Marx era um gênio: sensível, culto, prodigiosamente inteligente, mas os seus adeptos, na sua maioria, não passam de umas toupeiras. Se pelo menos tomassem contato com os textos do grande espírito alemão, na certa não diriam tanta bobagem. Marx não deixou, em forma de livro, nada sobre estética, mas são conhecidas muitas de suas opiniões sobre romancistas e poetas europeus, e sabemos que a morte o impediu de escrever um alentado ensaio sobre a obra do francês Balzac. Que eu saiba, todos esses admiráveis artistas tinham em alta estima a grande tradição da mímesis. Que era um todo muito complexo - envolvendo religião e mitos, e moral e política. E basta ler a prosa poética de sabor nietzscheano, de O Ignorado, para comprovar o óbvio. É fatal, porém, não ler nas entrelinhas certas passagens do livro. Pois, de resto, é tendência comum, entre autores mentalmente alertas, o fato de dizer as coisas de forma a que o seu verdadeiro significado nunca esteja prontamente visível aos olhos dos infiéis.

Jornal Universitário, Recife-novembro/1980. 

Autor: 
José Carlos Targino

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