Ângelo Monteiro - Tempo e Poesia

Tem-se falado, em largos e longos discursos, da crise literária que existe no Brasil. Antes, diríamos temos - na verdade - uma crise, mas de escritores. A literatura brasileira - e, como conseqüência, a poesia - está viva e rija, segura e muito bem sedimentada. O que há é uma pressa, uma sede de reformulação. Desde 1922 quando encontramos os nossos reais caminhos literários, os grupos têm se digladiado, trocado desaforos, insultos. Desta época em diante, temos atravessado as mais interessantes variantes. Até que desembocamos em 1945, quando a poesia tomou ares de "verdadeira" e se iniciou um período de maiores indagações em torno daquilo que viria a ser o "real" em nossas letras. Era o momento de euforia, de desencadeamento, de buscas exasperada. Falou-se - e ainda muito se fala - em "técnica", em "forma" e em "conteúdo". Algumas vezes sem se saber mesmo ou sem se ter consciência do que seria "técnica" , "forma" e "conteúdo". Tudo isso, não raras vezes, tomado em seus sentidos diversos, falsos e até irreais. Mas existia ainda a consciência do que seria a grande poesia brasileira. Em conseqüência, tivemos o aparecimento de um João Cabral de Mello Neto, a inusitadamente reformular os conceitos da poesia. Concominantemente, tínhamos a consciência do grupo, do aglomerado. Era toda uma geração pronta a se reger por determinada orientação e daí a partir para um trabalho mais sério, sem a pressa da "genialidade". "A pressa que aniquila o verso", como dizia Edson Régis.

No entanto, passado este primeiro instante, começamos a sofrer o esfacelamento. Como diziam: de certa maneira e até certo ponto vantajoso. Por que vantajoso? Exatamente, porque começaríamos a criar novas coordenadas, novos rumos, particulares ou particularizantes, mas nem por isso inteiramente estéreis. Pelo menos serviriam para nos apresentar a sôfrega multiplicidade de coordenadas. No entanto, em contrapartida, sentíamos que a consciência do "bloco" estava se desmoronando. Partidos, divididos, sentimos o surgimento do vazio. E é a verdade: vivíamos o momento agônico de nossas próprias pretensões.

De repente, como se estivesse apenas esperando momento de dar o "bote" ou de dar o chamado golpe de misericórdia, vimos o surgimento daquilo que seria para nós o descobrimento das verdadeiras intenções. Exatamente, exatamente foi essa a sensação sentida quando do aparecimento do Movimento Armorial Nordestino. Era o retorno ao grupo, ao aglomerado. Tendo na liderança um escritor da qualidade de Ariano Suassuna - o seu romance A PEDRA DO REINO cria já um clima propício a reformulações - jovens escritores como Ângelo Monteiro, Maximiano Campos, Marcus Accioly, Janice Japiassu sabiam que havia a necessidade de um "levante" literário coordenado, justamente para eliminar o esfalecimento.

É do poeta Ângelo Monteiro, que falo. Hoje, com três grandes livros publicados - Proclamação do Verde, Didática da Esfinge e, mais recentemente, Armorial de um Caçador de Nuvens - o jovem poeta pernambucano apresenta-se como um dos maiores escritores brasileiros. E dos maiores não apenas da sua geração, mas sobretudo, das gerações passadas, e principalmente, das gerações esfaceladas, de ontem ou de hoje, diga-se mais uma vez para reforçar.

O primeiro livro de Ângelo Monteiro foi publicado em 1969 através da Imprensa Universitária de Pernambuco. Trata-se de Proclamação do Verde. Ilinear na sua forma, o livro mostrava-se ou mostra-se compacto na sua maneira de apresentar uma "visão do mundo". Uma "visão do mundo" voltada para o "verdadeiro, para o "Absoluto". Uma "verdade" e um "Absoluto" de forma alguma dirigidos para si mesmo ou em função de si mesmo, mas buscando as extrapolações de seus limites. E a confirmação disso vem na palavra do próprio poeta, escrita no Anti-Manifesto ou A Guerra Santa contra o Óbvio que antecede às poesias propriamente ditas. Senão vejamos: "Somos de tudo por sermos o tudo; e o todo nem sempre pode ser reconhecido pelas suas partes quando isoladas, o que também eqüivale a dizer que nem sempre as partes podem ser reconhecidas pelo todo; o que eqüivale a dizer ainda, que as coisas podem ocasionalmente não ter nenhuma relação consigo mesmas quando de tal modo se dilatarem que se transcendam a si próprias. Porque aquilo que não se ultrapassa a si mesmo não é; e uma coisa só é à medida que assuma um caráter de permanência que transgrida todos os limites e fórmulas; à medida que atinja um grau de expectação tal que jamais termine... Daí só crermos na espera definitiva. Daí também não procurarmos a frágil segurança de certas posições que não operam além de determinado limite de tempo. Acreditamos que se deixarmos de esperar, deixaremos de existir. Somos expectantes não por nomeação, mas por essência. E a nossa espera não deve ser circunscrita apenas ao vocábulo".

É já o oferecimento consciente da grandiosidade poética. Ângelo Monteiro vem trazendo o que falta em demasia a muitos dos nossos poetas nacionais a preparação para ver o mundo. E o seu livro vai, pouco a pouco, demonstrando isso, quando encontramos não apenas o mero escrevinhador de palavras, o simplório criador de "formas" bonitas ou bem feitas. Mas saliente-se: não falta a Ângelo Monteiro o material literário para que conscientemente seja também um criador de formas, ou de labirintos de palavras. No entanto, isso vem mais como um reforço da criação literária do que da forma em si mesma. "E o arrebatamento do homem voltado para a reflexão, para a elaboração do bordado do seu mundo, para a criação de "conteúdos" . E não se tome "conteúdos" aqui para a apresentação de "idéias", de "filosofadas". Quando se fala em conteúdo - neste estudo - não se quer dizer mais que o levantamento de uma "visão do mundo". Ou noutra palavra: quer-se afirmar que Ângelo Monteiro, sabe e tem o que dizer. A "forma" tão proclamada é, justamente, o instrumento da sua voz, da sua profecia.

Na Proclamação do Verde estão alguns dos melhores poemas nacionais. Um livro de estréia, de uma estréia surpreendente. Há sobretudo a dança das cores - aqui diria que Ângelo Monteiro é um poeta da Cor, como disse o escritor Renato Carneiro Campos do poeta Carlos Pena Filho, em ensaio de fácil palavra e de forte auscultação; a dança do Misterioso; a presença do Sagrado.

A dança das cores inicia-se no título da obra. E nele, a intenção misteriosa de consagração do verde. Mas além do verde, há a presença do azul e não menos da cor rubra. O rubro, por si mesmo, cheio de significados, de intenções escondidas. Veja-se um trecho do poema "Anjo Rubro":

"A própria amada fiz rubra
não azul como a de Pena
ao tempo do tal azul
contradições pouco havendo".

E aqui vem o verde em toda sua pujança simbólica, sem as suas limitações de pintura-mural:

"Eu deixara este verde como herança,
Se do peso do verde, libertado,
Pudesse o mar em mim enclausurado,
Rebentar as barreiras da esperança".
(De Eu deixara este verde como Herança)

Percebe-se, então, que o "verde" apenas citado uma vez, aparece, intencionalmente e misteriosamente, em três outras ocasiões. Há por exemplo, as palavras "herança", "mar" e "esperança". Em "mar" e "esperança" compreende-se, facilmente, a intenção. Na "herança" existe o simbolismo mais exato. Ângelo Monteiro deixaria para os outros aquela "herança verde" que é a fortaleza de sua poética. No entanto, além de tudo isso - existe a profundidade do homem reflexivo. Pois é de palavra garantida que afirmo. Vem Ângelo Monteiro trazendo neste poema o oferecimento intencional dos visionários. Pois ele oferece-se não no sentido puramente gratuito de dar-se, mas voltado para o oferecimento do Sagrado, do magicamente religioso. Um oferecimento, que deixará como uma herança pejada de solidão, angústia e de mistério. É a voz de Ângelo Monteiro:

"Senhor, salvai-nos da ilha
E seu verde sortilégio.
Que sem rômulos e remos,
Partilhamos irmãmente
Do mesmo quinhão de tédio.
Sepultados nesta ilha
E juntos, despetalando
Flor de angústia e de mistério"
(De S.O.S. ou A Solidão do Poeta Diante de Deus)

Diante dessa prostração e diante de Deus, Ângelo Monteiro mostra a dimensão exata de sua face angustiada. Está dilacerado, mas não está só. Junto está com o verde, com os seus "irmãos" e, fundamentalmente, com os seus herdeiros. Mas:

"E da esperança bracejando
o vento não leva a voz ..."

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Foi através da Imprensa da Universidade Católica de Pernambuco, que o poeta pernambucano lançou o seu segundo livro de poemas Didática da Esfinge. Agora mais cheio de novidades formais - como se houvesse o desejo de ultrapassar todos os limites -, porém sem perder o fogo de sua Palavra, de seu mistério agonioso, da sua pujança filosófica.

Didática da Esfinge traz um objeto poético que ficou no embrião da Proclamação do Verde - mas, saliente-se com pressa, um embrião, às vezes mais forte que a própria vida corporificada e material. É a apresentação do personagem poético. Um personagem poético entrançado de intenções míticas ou mágicas. Daí o surgimento do Adorável, do Vazio, do Invisível e do Dragão. Mas personagens fortíssimos e corajosos, porque trazem o elemento deste:

"O Invisível espalha panteras
como se fossem dados de um jogo
sinistro e calculado: de um jogo
em que os dados também fossem dardos". (De O Invisível)

Neste livro, a cor passa a ganhar dimensões maiores porque é infinita. Ma este infinito vem povoado, principalmente, de um mosaico de inusitados instrumentos animais. São as garras do Invisível, do Vazio, do Adorável e do Dragão, funcionando como portadores da visão mitológica que o poeta tem do mundo. Mitológica? Por que mitológica? Ainda mais fantástica porque real e real porque imaginária, imaginária porque sonhada e sonhada porque verdadeira.

Há neste livro o poder fantástico de uma "quarta dimensão", desejada por filósofos modernos. Acontece que os filósofos ainda a estão procurando, enquanto os poetas já a encontraram. E não os "simplesmente" poetas, mas sobretudo os grandes poetas, e entre eles, Ângelo Monteiro, aquele que veio para glorificar.

Por isso preste-se a atenção ao que está escrito, e muito bem escrito no "Ode Sacrifical":

"Glória ao Senhor da Espera,
Aquele que perturba para depois violar.
Glória ao Perturbador e ao Violador das nossas almas,
Glória ao Divino Tentador, Serpente levantada sobre o deserto.
Para nos perder e para nos salvar.
Na ausência de montanhas ou grutas reveladoras,
No entrecruzar das vozes da terra,
Ouvimos ainda sua voz banhando a nossa solidão:
Pois os homens se deixam de novo tentar pelas palavras 
                                            [dos seus anjos".
(De Ode Sacrifical)

Neste poema cresce assustadoramente toda a excelente visão que o poeta vem apresentando do mundo e da sua posição diante do Sagrado. Tudo iniciado ainda no título do poema: "Ode Sacrifical". Pois há o dilaceramento daquele Senhor da Espera, que antes de ser apenas o que se entrega para glorificar-se, é o que perturba e tenta. Aqui é a visão verdadeiramente corajosa. O Senhor da Espera não simplesmente o Anjo, mas a Serpente, em sua dimensão do que há de Força e de Poder. De Força e de Poder que dominam em função de uma eterna dominação em busca do sempre Infinito, do Consagrador e do Alto.

Deixamos por último, propositadamente, para falar nos "Três Poemas de Percussão". Neles, Ângelo Monteiro soltou mais ousadamente as rédeas do seu sistema formal. Um sistema formal que não é apenas concretismo ou esterilmente experimental. E não seria uma experiência? Sim, o próprio ato de viver é já uma grande experiência. Mas uma experiência, esta a do autor da Didática da Esfinge, que vem em função da sua posição expectante, da sua posição do homem voltado - como já disse e reafirmo - para a reflexão, da situação do homem no universo e das suas conotações extrasensoriais. E não é concretismo porque deste difere na simples especificação do objeto através das camadas sonoras. E ainda que fosse uma experiência concretista, estaria à frente dos concretistas porque há a corporificação daquilo que está dentro para ser dito. Veja-se, por exemplo, este início do poema "Réquiem para Doremy":

"Sol era
Sol e Era
Solo e Hera
       Só
Solera
       Solera
       So le ra
Trombetas
Trombetas negras
Rompendo os tímpanos da aurora".
(De Réquiem para Doremy)

Não há aqui o simples jogo das palavras, do objeto. O objeto vem para corporificar o som ou melhor, o jogo de sons, que perturbavam o poeta.

Em Armorial de um Caçador de Nuvens "a paixão pertence ao domínio do mágico. E os mágicos serão os senhores absolutos da terra. Quem maior responsável pela vida sem imaginação que se conhece e que nos exila no mundo, senão o precoce e forçado degredo dos mágicos?". A afirmação ainda é do poeta Ângelo Monteiro, dita e consagrada, nas páginas iniciais do seu livro.

Neste livro, o Grande Mágico não é outro senão o seu autor, aquele que de forma admirável emerge do território misterioso da Poesia, para conduzir a palavra pelas montanhas da vida material - esta mesma vida material que precisa do sopro mágico do poeta para continuar existindo.

Em Armorial de um Caçador de Nuvens, mais do que nos seus livros anteriores, Ângelo Monteiro - assim como os seus companheiros Ariano Suassuna, Maximiano Campos, Janice Japiassu e Marcus Accioly - caminha pelas poderosas estradas da imaginação para trazer de suas origens ou de suas tradições todo o grande manancial poético do qual necessitava a literatura brasileira para desenvolver-se em todas as suas dimensões, para tornar-se forte e antes de tudo verdadeira.

Partindo da elaboração rítmica do verso - onde palavras e sons se integram para criar a dança do poema - Ângelo Monteiro constrói um universo de profundas penetrações mágicas. Tomando a palavra como objeto - não no mesmo sentido de João Cabral de Mello Neto - e dela se aproveitando para sistematizar todo um universo de motivações sensoriais, o poeta, ao contrário do outro de Morte e Vida Severina, lança os olhos para ver o visível no invisível. Sim, porque como afirma o crítico Benedito Nunes, em Cabral "numa" espécie de palco móvel, de espaço aberto e ilimitado, entre a percepção sensível e as lembranças, entre o olho que vê e a memória que evoca, nem o passado se distingue do presente nem o interior do exterior".

Através do ritmo, utilizando o chamado "ritmo de galope à beira mar", sai o poeta tecendo numa visão mágica e quase onírica, daquilo que se lhe tornou sensorial através do fantasioso. Uma visão apocalíptica onde, mais uma vez, voltam os seus personagens poéticos:

"O mago Verdantha cavalga no vento
De suas narinas de estrelas crispada.
E com seu querer ofegante de espada
E os giros vermelhos do seu pensamento,
Desperta dos lábios o império violento
De suas palavras de vida a sangrar
Aos príncipes loucos na praia a bailar.
E a angústia da voz que os cristais dilacera
Nos arcos do sol de seus lábios de espera
Desfere o galope na beira do mar".
(De Galope dos Mágicos)

Pois é vendo o visível no invisível, além do desdobramento visionário, e apreendendo as significações intrínsecas do elemento poético, que Ângelo Monteiro parte para a elaboração de um universo poucas vezes proclamado na literatura brasileira.

Outros elementos mais salientes podem ser analisados no Armorial de um Caçador de Nuvens. Seria o caso, por exemplo, das diversas formas de rimas utilizadas - Ângelo Monteiro tem profunda propensão para a rima; o que permite a elegância de sua poesia - e a utilização do verso. Aliás, versos e rimas que o tornam um entremeio do Modernismo e das formas manejadas pelos poetas da Geração 45, e, por isso mesmo, permitindo que ele venha a se tornar, a seu modo, um poeta renovador. Do Modernismo, muitas vezes, utiliza a liberdade formal através do verso-livre que rejeitou o emprego dos metros tradicionais do verso e da geração 45, surpreendentemente e contraditoriamente, o reacionarismo estético que veio, justo, para restauração do metro e da cadência do verso.

É um poeta, por tudo isso, a exigir que se faça análise mais cuidadosa.

Jornal do Commercio, 1972. 

Autor: 
Raimundo Carrero

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