Ângelo Monteiro e a Inquisição Poética

O próprio título do novo livro de Ângelo Monteiro, O Inquisidor, revela sua inquietação traduzida como interrogação da realidade objetiva e principalmente da realidade subjacente donde as formas poéticas são extraídas "com seu clamor aceso da esmeralda".

Para os antigos gregos "caráter" possuía o significado de gravação que não apenas se referia ao sinete como à forma por este deixada sobre a cera. O Inquisidor tem seu caráter fixado em tercetos decassilábicos brancos e sua marca no desvelar do objeto poético no qual o sinal gráfico interrogativo não é uma parte aderente à imagem lançada, mas um corpo necessário e essencial à sua existência.

Ângelo Monteiro instaurou um processo inquisitorial como se seguindo a raciocínio de um silogismo conseguisse redomá-lo num círculo de valores estritamente poéticos, carregados e carregadores dum mergulho em que as arestas do supérfluo são lançadas para fora do seu convívio, restando uma poesia despojada de olhos e braços ceando na bem-aventurança.

O Inquisidor, antes de se revelar à nossa fruição, impele-nos a associar seu título à triste Inquisição histórica ou a meros processos penais. Contudo, esta Inquisição, por se basear em essências, não indaga sobre fatos que pouco dizem à informação poética.

Mesmo sendo livro composto de indagações metafísicas, um verdadeiro movimento inquisitorial, como o seu, ao fazer a pergunta já tem captado a resposta, pelo fato de ter a mente indagadora uma visão completa das coisas nas quais sua própria essência está inserida; como se, ao ser a pergunta formulada, o espírito já aguardasse a resposta determinada, pois apenas transmutou um dado conhecido anteriormente - a afirmativa - numa interrogativa, mostrando assim que sabe, de antemão, todo o processo que dialeticamente terá de percorrer.

No Primeiro Tema Sem Júbilo o Inquisidor indaga:

"Onde encravar a pérola do júbilo,
Com seu clamor aceso de esmeralda,
Nos anéis poluídos do Destino?"

O júbilo é um sentimento de que apenas o homem participa, já que apenas ele tem o privilégio de tornar o grão de areia de seu sofrimento em pérola que, em minúsculo alicerce assentada, eleva-o à sua própria culminância dolorosa onde estabelece o mais alto grau colocado à sua consciência.

Os anéis do Destino estão poluídos, porém ainda resta a "pérola do júbilo" que o poeta não sabe onde encravar, por estar ciente que este "onde", procurado além, encontra-se em si mesmo, ostra poética.

A visão de Ângelo Monteiro abarca não apenas o valor estético, mas, acima de tudo, o valor ético como conseqüência das coisas que, cantadas, se tornam mais existentes, arrancando o homem para uma responsabilidade maior perante si e a Natureza que o integra, e sobre a qual ele indaga porque antes deseja conhecer sua origem perdida na noite dos tempos e seu destino último.

Sentimos em seus versos um revolver-se por não se conformar aos planos meramente estéticos; uma relutância em se curvar ao formal, por saber de superioridade da ética, que constrói os fundamentos da distribuição da substância no espaço e das idéias no espírito.

"Vassalo. Príncipe, Eleitor e Eleito:
- Em que paços sagrou-se a negra fronte
Do que comanda as legiões do Medo?"

O Cristianismo nos trouxe a uma expectação que desemboca num sentido teleológico da História que já não se escoa brancamente; sua foz é a Derradeira Inquisição na qual seremos Eleitores e Eleitos pelas respostas indefensáveis que haveremos de dar às nossas próprias indagações.

A Inquisição proposta pelo O Inquisidor é antes de tudo cristã. João afirma categoricamente em sua primeira Epístola: "Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele". O mundo de que o Apóstolo nos fala não é o mundo onde o agir humano se executa, pelo que muitos poderiam ver gratuitamente esta tomada de posição diante da realidade como uma negação da cultura e da vontade, daí passando à defesa da necessidade do aniquilamento do sentimento religioso pela sua perniciosidade à formação do progresso.

Esta não é a via correta, visto o dado religioso ser um dos ângulos do todo cultural ao qual pertence, não podendo desta maneira simplista ser negado. Tal negação do sentimento religioso acarretaria a destruição do próprio conceito de cultura que não pode ser negado prescindindo de partes. O que João quer dizer-nos é que o mundo é dominado por sensualidades, superficialidades, concuspiscências do coração porque dos olhos, permissividades em contraposição às grandes aberturas mentais e uma série interminável de pseudofilosofias, tão sem desafios aos seus seguidores, que qualquer "sinistro", para usar das palavras-chaves do Inquisidor, bem as pode seguir e precipitar-se no despenhadeiro geraseno da Vida, com nenhum prejuízo a não ser para si mesmo... O ser humano tão facilmente se entrega a míseros postulados, se assim podemos chamar, porque lhe falta o corolário do Juízo do julgar sobre as coisas para que possa construir sua ética voltada para uma construção harmoniosa de si e do Outro. Para estancar tais inversões uma Inquisição particular se faz necessária como malho que aplainará as sinuosidades do Espírito. Se a vida não se torna plena através do Juízo, fundamento da Inquisição, como entender a palavra de Paulo que nos incita a julgar todas as coisas retendo o que for bom? Como saberíamos da bondade das coisas se não indagássemos das próprias coisas? Não estaremos nós também incluídos neste "todas as coisas"? O amor do Pai ou da Natureza, como preferem outros é Juízo através do qual mensuramos as alturas para que nos tornemos semelhança Sua à medida em que guardamos identidade com o Todo que, por se manter ordenado, impõe-se à nossa razão como o primeiro Juízo. Não será o verdadeiro estar aqui uma Inquisição prática?

"Além da Casa que alicerces sondas,
Que escadas te conduzem na vertigem
Que o cansaço do perto leva ao longe?"

ALÉM DA CASA QUE ALICERCES SONDAS

Bachelard, em A Poética do Espaço, afirma: "Nossa alma é uma morada. E quando nos lembramos das "casas", "aposentos", aprendemos a "morar" em nós mesmos". E mais adiante: "Quanta psicologia há numa simples fechadura, de um desses móveis (gaveta, cofre, armário)! Trazem consigo uma estética do escondido. Uma observação preliminar será suficiente, uma gaveta vazia é inimaginável. Pode apenas ser pensada". Embora o terceto refira-se ao Outro, é o próprio "ego" do poeta que anela por um alicerce transcendental partindo das fundações em que pisa.

Houve uma lembrança de "casa" porque o poeta aprendeu a morar em si mesmo e consigo mesmo, e esta lição nada mais é que a esfera na qual se preparou para desvelar as oposições da Vida. Da mesma maneira que é inimaginável uma gaveta vazia pela falta de sua funcionalidade, também é inconcebível uma casa vazia, morta. Toda gaveta é soturna porque interior, anímica; toda casa nos esconde, como se fôssemos "coisas", em sua grande gaveta.

QUE ESCADAS TE CONDUZEM NA VERTIGEM

A imagem arquitetônica "casa", exterior, para Ângelo Monteiro completa-se com "escadas", interior, pelas quais se pode abandonar o pavimento térreo e passar à etapa superior que é causadora própria dos sonhos e das vertigens a eles ligados.

QUE O CANSAÇO DE PERTO LEVA AO LONGE?

Este cansaço é a própria lembrança, na carne, da marcha dialética da espera, até o derradeiro degrau, que não se acomoda, mesmo com as formas exauridas; tende sempre a levar o fardo adiante, até o longe final ser atingido; o "perto" é o meramente existencial, ponto de partida para sua conclusão.

"Há um frio que não dorme nesta espera
De braços arrancados: por que tentam
Mesmo presos ao chão, furar os ares?"

Mais uma vez temos a marca sombria, como de todo o maduro, dos poemas de Ângelo Monteiro. Estigma peculiar a O Inquisidor é seu constante simbolismo. Simbolismo lusco-fusco de sua expressão, seu sentimento "europeu", despojado de luz aberta, opondo-se à paisagem possuidora de "cores nítidas, e quentes, planos marcados, luminosidades". A paisagem desvelada não é a natureza dos trópicos, é antes o mundo subjetivo e subconsciente que, por ser voltado para o fundo, encontra ressonâncias com o clima escurecido e lúgubre das regiões enevoadas.

Do primeiro ao último Tema Sem Júbilo fecha-se o grande anel, o Alfa e o Ômega, todo o sentimento de quem partindo da negação, cinzas de niilismo budista, conclui no Paraíso sua finalidade, fundindo-se "na comunhão das chamas e das águas". Amém.

Jornal do Commercio, maio/1976 

Autor: 
Antônio de Campos

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