A Chave Messiânica do Inquisidor

Não há maiores "rios de angústia" para o homem de talento do que a certeza de que é Homem e não Deus. Certeza que o torna poeta, quando não o obriga a trilhar caminhos de desvairos maiores: o da perdição. Não ser ou não ter o poder sobrenatural é um trauma que o artista carrega dentro de si, qual uma fruta que, contra a vontade, amadurece e cai do pé. A angústia do poeta é como a velha certeza que os gregos já reconheciam pela voz de um dos maiores dramaturgos daqueles tempos (e dos nossos também) Sófocles: "O melhor é nunca ter vivido".

Se a certeza da pergunta atrai a dúvida da resposta, o inquirir é um ato de impossibilidade plenamente realizável, pronto e acabado. Se a dúvida preside o indagar, a certeza é o núcleo da resposta, na medida em que o possível se dilui ante os olhos do Inquisidor, anunciando-lhe a área do impossível. Se a certeza é o provável desterro, onde se fiam os enigmas do viver, a dúvida forjada no fogo, qual cera de vela que se amolda quieta abaixo da chama, forma uma realidade. E desse ir e vir de paixões incendiadas - perguntas X respostas - nasce um desejo claro e incontrolável que tem o Homem de declarar-se Messias: aquele que responde ao perguntar.

Na casa d'O Inquisidor lê-se um pórtico aureolado de todas as letras dos papiros utilizados pelos Sábios da Babilônia (vislumbro o umbral por onde eu, um dos caldeus, tento entrar nos domínios do Rei Nabucodonosor), narrando as maravilhas da interpretação de um novo sonho: Daniel, o Sábio (o Homem poeta?) diante da estonteante figura do Rei (o Deus poeta homem?). Essas entidades, de um momento para outro, assumem as características de deuses a se confundirem num só ser ou em muitos, dependendo das circunstâncias. Há, nisso tudo, como de resto acontece agora com a poesia de Ângelo Monteiro, um assinalado desejo de o Homem assumir o comando dos atos divinos para melhor ver os seus sonhos realizados. O homem não quer mais sonhar dormindo e passa a sonhar acordado. Sempre foi assim. A História está cheia de exemplos desta natureza.

A intriga que os homens praticam no plano da vida não é menor do que a praticada por Deus no plano divino. "Deus é o maior dos intrigantes" já advertia Maomé, ao divulgar, como faz Ângelo Monteiro o lado carismático que a compreensão de Deus assume na mente dos pecadores, isto é, dos Homens. Se a intriga é dos Homens contra Deus, os Homens já perderam a parada, porque Deus os criou. E a sagacidade dos Homens para onde se encaminha? Eis a argüição dos inquisidores da vida.

O núcleo da questão messiânica na poesia de Ângelo Monteiro, neste seu último livro, tão diferente das suas preocupações armoriais do livro anterior, reside num ponto facilmente identificável: o artista, quando possuído de uma revolta metafísica, tenta explicar todos os fenômenos à luz do seu ideal. As barreiras oferecidas pelo plano realístico assomam-se de tal sorte que tudo se afigura extremamente hostil. E a solução encontrada, via de regra, é a fruição de um estado qualitativamente anárquico. Anárquico no sentido filosófico de questionar o desordenado, o desprovido de regras da realidade, o desproposital das circunstâncias hodiernas, quase se é que assim se pode dizer, num rasgo inusitado em pleno céu aberto, como se fora uma estrela errante. Mas, o que dizer da plenitude e da conformidade do destino de uma estrela errante?

A platéia dos que pensam construir um mundo idealista ainda é a maior de todas, sobretudo neste fim de século, onde as palavras tomam sentido completamente diferente do dia para a noite. "Seriedade" deixa de ser seriedade conforme a manchete ou juízo literário de quem a escreve. Há, por assim dizer, um cataclisma nas consciências e os chás-da-época são ineficientes para sanar os males destes tempos de incertezas. Será que diante dessas amortecidas visões inquisitoriais, há algo mais para se inventar? A interrogação é proposital por ser o próprio poeta Ângelo Monteiro que, também interrogando, responde:

"Que fazer das alturas que inventamos,
Se cedo ou tarde o céu há de tombar,
Despovoado de estrelas, sobre nós?"

A construção imaginativa ou, se preferem, a reconstrução do anárquico instaurada como componente de uma nova ordem, se insurge claramente contra uma vivência possível no sentido sociológico. Só num plano de transfiguração, onde as imagens passam por um prisma cristalizador ou se afunilam para depois se espraiarem num verdadeiro oceano de ânsias (com sal), pode o Inquisidor "ocultar as faces confundidas". E o poeta, no afã de salientar os efeitos teleológicos dos seus atos, pouco "teme que o cristal se quebre". Afinal de contas, a quebra do cristal não é problema para quem sabiamente erige o próprio cristal e dele se utiliza para enfeitar melhor os caminhos dos que passam silenciosa ou ruidosamente em direção aos campos do Senhor da Espera.

Neste sentido, não consigo vislumbrar n'O Inquisidor a incorporação do épico. A densidade mística, alicerçada por uma febre quase à flor da pele, a deslizar pelas páginas tão concretamente alinhavadas em tercetos formando os Temas Sem Júbilo, são indiscutivelmente unidades fortíssimas de um mistério que denunciam a posição messiânica de Ângelo Monteiro, ante as suas graves e extasiantes inquietações sobre o nosso tempo e as nossas vidas.

Eis uma das chaves d'O Inquisidor.

Diário de Pernambuco, outubro/1976 

Autor: 
Cláudio Aguiar

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