A Dualidade em "O Inquisidor"

Li O Inquisidor, de Ângelo Monteiro, e lembrei Catulo, o Romano. Reli e, com vagar, encontrei momentos inovadores que fogem à prevalecente média das preocupações pseudo-místicas e do delírio sexual. Já é muito, muito mesmo nesta nossa poesia e como não poderia deixar de ser, os apresentadores e críticos nada perceberam. Deixemo-los, porém, de lado que são valiosos no manejo das reputações literárias e fiquemos no seu Canto.

Fixo-me, dentre os poemas que o formam, naquele do Senhor da Espera: Pacto. Excelente forma, ratificando-me a desconfiança de que fazer bons versos livres é bem mais difícil do que metrificar e rimar produções usuais. Vou evitar a linguagem vaga e cambiante do desconhecimento e do agrado: ele me parece ter um conteúdo universal. Reflete a angústia humana, feita de esperas e mais esperas. Nada mais bonito do que reunir todas as esperas e, como os gregos fizeram ao vento e à desordem, dar-lhes unidade, consciência e tratá-las de Senhor. Um Amo inacessível, provavelmente a-ético e desinteressado, que não entrevê a condição do "poeta e auxiliar de Anjo", para comover-se.

E, mais relevante, nem a cumplicidade o abala. Aqui, no meu ver, está o instante do poema. Somos, conscientemente, cúmplices de tudo quanto ocorre, dos grandes e dos pequenos acontecimentos, que se passam em nós e fora de nós, que foram e que serão. Esta conivência de pensamento, plano, ação e forma que, no mais das vezes, nos contrapõe a nós próprios, tem expressão histórica. Talvez seja melhor dizer como Shakespeare:

"The fault, dear Brutus, is not our stars, But, in ourselves that we are underimgs". (Julius Caesar)

A cumplicidade incompreendida e inquietadora se afirma nos paradoxos que desconcertam o existir: os limites do tempo que não está "além de todo o senso de duração" e a dualidade humana: "o demônio que me domina"; "o anjo que dormita comigo". O tema, a epopéia do homem, lembra o princípio do Gilgameche:

"Gilgameche era rei de Uruque,
Uma cidade que havia
Entre os rios Tigre e Eufrates,
Na antiga Babilônia.
Euquidu nasceu na planície,
E, ali, cresceu entre os animais.
Gilgameche era um deus e um homem.
Euquidu era um animal e um homem.
Aqui se conta
Como, juntos, tornaram-se humanos".

O mundo se desenvolve em contradições que atormentam o cúmplice ignorante e inseguro. Daí o apelo à Fidelidade: a palavra extrapola o significado corriqueiro, na tentativa de ordenar o absurdo, salvando e/ou destruindo. Ela é o escudo que defende do não ser: "Não sei se isso é um milagre"; "Todo caminho leva ao porto: Só que não há porto".

Ao final, a procura da chama "contendo ao mesmo tempo, o dentro e o fora dela", que não encontrou na mulher mãe-amante. O amor que se dá, que recebe, não afirma, não explica nem compensa e, no entanto, cultivado cresce e tortura. Vou ser de uma erudição oportuna, transcrevendo semelhanças:

"O melhor? Não ter nascido, não ser". (Resposta do Sileno ao Rei Midas)

"Odeio e amo, pergunta-me porquê?
Não sei, mas sinto, e, por isso sofro". (Catulo)

"Tarde! Tarde! Te encontrei ó Beleza tão antiga e tão nova. Estavas em mim e eu a procurar-te por todas as coisas". (Santo Agostinho)

"Eu rio em lágrimas
E aguardo sem esperança". (Villon)

"Francamente, não sei o que a providência pretende de nós". (Teilhard de Chardin)

O poema explode num plano de coerências e efeitos próprios, que destoam da compreensão lógico-linear. Se assim não fosse não seria poesia. O sentimento e a visão dilatam e rearrumam as estruturas, qual o provérbio de Blake: "the cistern contains, the fountain overflows".

Jornal do Commercio, setembro/1983. 

Autor: 
Fernando de Barros Correia

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