O Casamento dos opostos na Poesia de Ângelo Monteiro

Depois de Proclamação do Verde, Didática da Esfinge, Armorial de um Caçador de Nuvens, O Inquisidor este livro terrível - e O Ignorado, chegamos, finalmente, a O Rapto das Noites ou o Sol como Medida, onde Ângelo Monteiro mostra a sua criação poética à imagem de identidade mitológica: possuidora de duas faces, compondo o mesmo rosto em que o perfil é uma fronteira impossível de se precisar. Numa face tudo é transparência: o Sol banha a dor do Poeta, reconfortando-o com o Fogo, sempre vivo. Noutra, dormem os abismos do que chamamos noite, se olhamos para fora, e instinto, se fechamos nossos olhos.

Em Ângelo Monteiro, como tudo na criação e no Criador, as festas da visão são bodas íntimas. Em ambos há um mais profundo cobrir-se de véus: ignoramos onde principia a claridade dos céus da razão e onde finda a obscuridade oceânica da imaginação. Na alcova do horizonte se tocam dois polos e já não sabemos a qual pertencemos. Inútil seria a voz do Poeta se buscasse os cantos de uma região apenas.

Ângelo Monteiro misturou em seu cadinho, noites e sóis, sofrimentos e júbilos: lançou a semente de formas límpidas e acolhedoras de luminosidade dos sonhos, fundiu os sexos por nostalgia da Unidade, da Simetria e da Perfeição perdidas, e em assim o fazendo, enlaçou, qual Hermes no caduceu, duas serpentes que, de início, lutando entre si, acabam por simbolizar a concórdia dos opostos.

"O Poeta é o Andrógino do pássaro e do peixe: da parte que voa e da parte que se deixa submergir", Ângelo Monteiro canta. É no mar que se embala o materno e no espaço, para além do vôo do pássaro, a luz fálica do Sol a fecundar a mais fêmea das criaturas: a Água. Na Água, o Poeta sonha como fazer da Terra trampolim a fim de atingir os ares e tombar, após sua conquista, no mesmo seio de quem o concebeu e o deu às estrelas.

Ao Poeta custa dores para libertar, do limbo, seus balbucios até formar a primeira sílaba do nome que em seu coração palpita até, contraditoriamente, se amalgamar com a desconhecida Irmã por quem chama. Amiga itinerante sobre o deserto e Amada entre nuvens escondida: "No princípio eras o nome/que eu dava ao que amava mas desconhecia".

Num único molde, o Poeta promove as núpcias e alianças do Espírito com o Sangue, ao longo de poemas com ritmo escorreito e debastados como árvores que, chegadas com força redobrada, com mais substância contundem a face apavorante das trevas.

Tomando o Terno por modelo, O Rapto das Noites ou o Sol como Medida, se revela como painel tríptico: um só motivo condutor servindo de argamassa à sua construção poética unitária: a solidão do Poeta, Noé da Barca dos Seres, que tudo acasala, e tem seu coração preso às coisas em renovados sentimentos de atração pelo Valor da Beleza que, acima do dilaceramento do Mundo, o convida a atuar.

Ângelo Monteiro luta com os manequins por falta de Anjos e Homens, sem porto de retorno se exila, advém de acalantos e choros mas, além de tudo o mais, é o que traz a palavra exata, e esta os "vampiros" não poderão jamais sugar.

Diário de Pernambuco, setembro/1983.

Autor: 
Antônio de Campos

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