Indagações - Poesia

O Inquisidor - Ângelo Monteiro - Poesia - Editora Quíron - Rio de Janeiro - Prefeitura Municipal do Recife Secretaria de Educação, 1976.

Em nota de onze de maio de 1975, Ângelo Monteiro disse considerar seu O Inquisidor "um projeto". As razões que o levaram a tanto, bem como a disposição dos seus temas sem júbilo em poemas de nove tercetos seguidos sempre de poemas compostos de sete tercetos também decassilábicos, estão resumidamente expostas (a modo de epílogo) na página 83 da sua obra. Talvez algum crítico - desses que gostam de "arengar" em torno de questiúnculas e esquecem do que realmente deve ocupar o crítico, que é interpretar a poesia - aí encontre material para longas discussões a respeito de problemas formais, estruturais, semióticos, etc., etc. Pareceu-me bastante apropriado o autor chamar seus poemas de "um projeto". Nestas notas justifico por que razão assim penso.

Não se faz literatura sem que se tenha uma concepção ampla, arguta e bem definida a respeito da condição da exist6encia humana. O que investigamos na obra de um poeta, afinal, é precisamente o que ele pensa, e ao pensar, o que sente sobre a problemática do homem. Naturalmente, o que o poeta concebe como situação humana objetiva-se em linguagem, sendo na forma poética, por conseguinte, que nos interessa apanhar a sua cosmovisão (como se diz normalmente). À sua forma poética Ângelo chama "projeto". E o seu "projeto" configura-se numa indagação. Toda a poesia de Ângelo Monteiro, pelo menos em O Inquisidor, é uma interrogação. Uma pergunta estreitamente ligada à situação humana. Olhando o homem e o seu destino, o poeta interroga. Não é por acaso que se diz que a poesia é vida; em forma poética, objetivada em linguagem. O lirismo de Ângelo Monteiro (ou épico-existencial), como querem alguns - só que, no meu entender, o lírico, o épico e o dramático verdadeiros são manifestações poéticas que mergulham nos mais profundo meandros da existência, revelando-os poeticamente; desde que se atualizem os conceitos desses gêneros literários, de modo especial o lírico, não se verá a questão de outra forma), pois bem, o lirismo de Ângelo Monteiro extrapola a esfera da pura individualidade e envolve-se com a grande indagação do homem, que se pode traduzir na pergunta fundada nos seus versos: "Como fugir à dor da transcendência,/se ela aferra na carne as suas âncoras,/tal se apenas a amasse por ser frágil?

Assim, Ângelo ao afirmar que os seus temas sem júbilo são "um projeto", traduz na forma poética o que pensa sobre o homem - um ser que se projeta sempre no sentido de uma transcendência. Vida, poética e poesia se dão as mãos, aí.

Não ser apenas um apelo à autoconsciência do seu autor significa, na poesia de O Inquisidor, um relacionar-se com determinado elemento de conteúdo condicionado por uma realidade que, naturalmente vivenciada intimamente pelo poeta, pode ser entendida como a constante procura de sentido da vida - o ser humano, na dialética da sua singularidade e universalidade, divide-se entre "a dor da transcendência" e a "angústia do corpo" por "sabê-lo não durável". A angústia que se presentifica na indagação de O Inquisidor é a própria angústia do homem no tempo, de modo especial hoje, quando, turbado pelo que é imediato, aparente e muitas vezes fútil, prevalece, segundo somos levados a crer, o intuito de proibir-se o indagar sobre o sentido da existência. Ao homem, o que restará, afinal, quando, totalmente envolvido pelas engrenagens sociais - que, mutatis mutandi, repetem a senda do rei Midas, tudo transformando em interesse de consumo -, não mais pensar sobre a sua realidade? É quando, de resto, cabe ao poeta indagar: "Que sol há de dançar sobre o roteiro/das máscaras visíveis e invisíveis/que já não se separam mais da face?"

Na forma de indagar de Ângelo, podemos constatar o que Sartre chamaria de interrogação absoluta - personne n'est interrogé; personne n'interroge. Et l'interrogation ne comporte pas de répouse ou plutôt elle est sa propre réponse. Aí a angústia se faz linguagem, que indaga, fundando no verbo a própria ansiedade humana a respeito do seu destino. A consciência que o poeta tem da força fundadora da palavra é evidente: "No amor como no ódio que linguagem/poderia surgir sem ti, Palavra,/que danças tua sombra sobre os pântanos?"

Sobre os pântanos do "sal das ânsias" está a palavra, como "cálice virgem", para receber, em forma de canto, a perene indagação do homem sobre si mesmo. Por isso o poema pereniza-se. Na interrogação de O Inquisidor está a ânsia do homem, por não se aceitar a não ser, também, como um projetar-se em direção a uma perenidade com a qual sempre sonhou.

"Domar o poema" é, para o poeta, salvar-se, fazendo "o tempo durar em (seus) limites". O poeta sabe que canta,/E a canção é tudo. "(...) Tem sangue eterno a asa ritmada".

Diário de Pernambuco, janeiro/1979. 

Autor: 
Janilto Andrade

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