O Inquisidor: Uma Épica de Estados

A característica primeira de O Inquisidor, de Ângelo Monteiro, é a sua interrogação do objeto poético. O objeto poético não somente se torna matéria de canto mas de uma inquisição por parte do espírito do poeta. A interrogação ultrapassa o nível de sinal gráfico para se transformar em elemento intensificador por excelência dos significados do poema, ligando-os ao seu núcleo temático principal.

E a diferença dessa inquisição, que é poética, da inquisição histórica reside em que, contrariamente à segunda, é voltada para dentro do próprio homem que se faz ao mesmo tempo o inquisidor e o inquirido, o réu e o juiz de si próprio.

O procedimento racional adotado por Ângelo Monteiro neste livro - que, quanto ao método, permanece estritamente poético - quis levar em consideração não só o consciente mas o inconsciente, pois também o lado onírico-lúdico do homem possui elementos esclarecedores para a sua indagação poético-existencial.

A objetividade poética de O Inquisidor retoma a linhagem lírica de Dante e de Baudelaire e erige, em nosso tempo, aquilo que se poderia chamar de uma épica de estados em vez de uma épica de situações, procurando-se, dessa forma, levar mais em conta os fatos espirituais que se processam no interior da consciência atormentada do homem de hoje do que acontecimentos exteriores que necessariamente teriam de se derivar daqueles por uma espécie de causalidade trágica.

Trata-se certamente de um livro difícil cujos enigmas não poderiam ser resolvidos numa primeira leitura. O leitor, entretanto, está convidado para colaborar com o autor na descida até a fundura do poço, onde certamente se encontrará face a face com a sua própria realidade que é inferno, purgatório e paraíso.

Diário de Pernambuco, Letras da Semana, março/1976. 

Autor: 
Marcus Prado

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